31/01/12

Meu dia acabou

Tem poeta que diz por aí
que é o tempo.
Há os que dizem:
eu sou o hoje.
Meu dia acabou
nem esperou a noite.
O que faço eu aqui
no meio da tarde
sem dia?

Ramon Alcântara

27/01/12

Compulsive Disorder Sharing

Ele me diagnosticou com Compulsive Disorder Sharing,
disse-me que é um quadro novo,
estudado somente por psiquiatras especializados
que investigam Internet Addiction.

Receita:
  • Conversar com os livros
  • Contar as rajadas de vento à noite
  • Escrever cartas diárias para Manoel de Barros
  • Deitar na parede a cada seis horas
  • Sempre que possível, se encolher em um canto do banheiro até conseguir torna-se umidade

Ramon Alcântara

28/12/11

Curioso como as coisas... (Série Poesias Velhas Achadas)

Curioso como as coisas
perdem seus sentidos
com o tempo.

Ontem rasguei uma
tonelada de cartas
de amigos antigos.
Agora sinto-me mais
só.

Ramon Alcântara

16/12/11

O príncipe encantado e a heroína

I

Não adiantavam nem choros em calhamaços, nem chorumes
- eu só via risos, só ouvia risos, só havia risos, sorrisos
e agora assim foi buscar felicidade em outros fracos braços,
outros amassados laços, maços de espaços do que é preciso de fato.

Fugia para todos lados e para outros fatos chatos magros casos,
- você me tinha canalha, não venha canalha, desdenha canalha
e destratado pelo acaso deliberado por seu senso vago largo
estático ou em pequenos passos me aproximava caía de nossas falhas.

Estávamos todos perdidos deitados em terrenos circulares vadios,
- eu procurava atitudes, eu protelava atitudes, você protelava atitudes
de certa forma nesses que ficamos rendidos por nós frouxamente eles
e os limites marginais finalmente nos levariam para uma abismal incompletude.

Passou-se o tempo e não adianta eu nem tento novamente estar
- você não soube me encontrar, não soube te contar que você não estava lá
e saberíamos logo que o aprisionamento da coragem é a liberdade de amedrontar
por isso mesmo o príncipe toma a heroína para salvá-la e para se salvar.

II

Agora as crianças deturpam nosso enredo como um ledo engano
- você estava certa, você quase acerta, você estava incerta
e riem como se fosse comédia a tragédia dramática por debaixo dos panos
e engordam as doces bochechas vermelhas platéia fantasiosa concreta.

A heroína que havia salvo o príncipe sai como se surrupiado seu bem-estar
- você meu bem esteve em você, meu bem está sem você, meu bem
há poetas enlouquecidos caçando-a para muita surra bruta queimá-la
há bruxas desejantes, putas corajosas, serafins e homens do além.

Do verdadeiro príncipe pouco se sabe se ainda se encanta com o vão
- você não me quer mais, mas me quer mais, mais que o mas que não quer
entretanto o encanto que nem era tanto ficou no canto do primeiro não
ele vai em desvão por aí na contramão da solidão que companhia não é?

Há quem fale em retornos sem engôdos dos mais amores gordos que se teme
- você não se importa com minha tristeza, você não importa minha tristeza
e viveriam tristes para sempre um do lado do outro lado do outro sempre
no inverso do anverso do verso que a versão inventou para os outros ela.

As reticências não justificam os meios fins em silêncio não diz sim talvez
- você sem palavras, mas você tem palavra, você nem calava quando era
alguns contam os momentos felizes nos entremeios incertos dos reversos
conversas longas intermináveis que buscavam tempos incontáveis inimagináveis.

O príncipe encantado e a heroína cantavam tardes luxuriosas maravistosas
- vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem, vem você
jamais estiveram lá em corpo, eram seus fantasmas antecipados putarias gloriosas
eternidades nasciam dela, gerações inteiras para-seculares do gozo-rei.

- ...?

Na verdade, a história não houve, os personagens todos interpretados por você realidade
- você sou eu, eu sou você, nós somos nós que sou eu, eu sou eu, a mentira sou eu?
não houve príncipe, nem heroína, nem platéia, nem crianças, nem coadjuvantes infelizes
até os poetas eram você, tudo inclusive isso poesia maestria de nada de fim, lugar-eu-você.

Ramon Alcântara

11/12/11

Preâmbulo

Acordei com o tapa-olho
encharcado de lágrimas.



Mas as lágrimas não eram minhas.



Não entendia porque sofria
daquela forma intensa.



O sofrimento não era meu.



Não entendia porque Cat Power
gritava tanto intensa.



Sim, eu posso ser perigoso.



E não adianta dizer
que a vida não é triste.
Eu matei crianças em meus sonhos.
Crianças que se apaixonavam por mim.



A repetição é um sintoma filogenético!



E eu era o psiquiatra de deus.

Ramon Alcântara

___

Incidental:

Eu era o psiquiatra de deus

Ele chegou ao meu consultório
afirmando que havia criado a vida
e que não estava surpreso.
Diagnostiquei um quadro
de Transtorno Esquizofreniforme
com sintomas negativos
de traços depressivos.
Receitei: leituras diárias do poeta Sérgio Vaz.

Ramon Alcântara

21/11/11

Auto-viação Progresso

Compro a passagem
definitiva.
Uso o dinheiro
contado.
Entro no ônibus
correto.
Sento na poltrona
definida.
Leio o livro
sagrado.
Em uma velocidade
constante.

Vejo o mundo todo indo para trás.

E é com o mundo todo indo para trás
que eu chego onde quero
o meu destino.

Ramon Alcântara

18/11/11

Gozo

O sorriso disfarçou o choro,
o cabelo escondia o rosto.
O silêncio calou o coro,
nada mais revelava o todo.
O sexo tapou o fogo,
o buraco era o topo.
Corações foram enrolados em rolos,
a verdade invertida no dorso.
O amor me deixara bobo,
confessava-me outro.
O limite não passou de um jogo,
que a vitória me deixava louco.
Mesmo que para eles seja pouco,
assinei essa poesia em seu corpo.

Leve-me em cada gozo.


Ramon Alcântara

15/11/11

Durante um tempo Manoel de Barros morou na Rua do Amor

Por um motivo desconhecido
correu até a rua, quando chovia.
Deitou no chão e deixou-se levar
pelos córregos
até escorrer em uma boca de esgoto.
E de lá não se teve mais notícias.

Há quem diga na rua
que ele passou direto
e infiltrou-se na terra.
Flores e frutos com seu nome,
por conta dos moradores.

Seu vizinho atesta que
ele ainda escorre por aí
embora nos livros fale-se tanto de limo.

Ramon Alcântara



07/11/11

Poesia Dois

Narciso em perversão -
eu me escutando
em suas palavras-manuais,
você manufaturada nele
por outro artesão-trovador.

Diana líquida -
envolve-se em danças-maquiagens
devir-loucura musicófobo,
enquanto recito as linhas de fugas
que nos levarão a mesma fabriqueta.

Trans-histórico esse amor
mitológico pós-moderno,
que inventa ab-estratos?

Ramon Alcântara

18/10/11

Links para um rizoma III

São alguns bilhões
de outras coisas diferentes.
Umas se repelem,
outras se atraem.
Mas são apenas
coisas diferentes,
outras.
Eu estranho todas elas.
Por sorte,
alguns códigos se assemelham.
Desejos se encontram,
avulsos.
Mas são alguns bilhões de coisas
diferentes.
Eu me deixo seduzir
pela generalização.
Tudo espalhado no chão.
Não precisava nem contar.
Agora inventaram um outro modo
para agrupar tudo isso.
Eu, nunca encontro.
Talvez, nem haja.
Nem eles.
História sem historiador,
leitura sem leitor.
Máquina-vida.

Ramon Alcântara

07/10/11

Ímã de fragilidades

Sou um ímã de fragilidades dispersas
cristalizando-as em uma singularidade
que me torna alguma irrupção
de nossa desordem.

Não me toque
irresponsavelmente.

Ramon Alcântara

27/09/11

Às vezes...

Às vezes
escrevo uma poesia inteira
na mente.
Recito.
Não anoto.
Esqueço.
Nem sequer um verso,
lembro depois.
Acho que já tenho um livro
assim. Acho.

Estranhos são os leitores
que leem.
Mesmo assim. Estranhos.

Todo rascunho é uma poesia.
Toda palavra, um verso.

Não guardem meus segredos
fantasmas. Nem agora,
nem sempre!


Às vezes,
também,
anoto poesias
mentiras
mnemônicas
alheias
meta-ubiquidades.
Como esta.

Estranhos são os leitores
que leem.

Ramon Alcântara

05/09/11

O causo de Raimundo é o causo de todo mundo

Deus criou o mundo
depois que viu Raimundo
dizendo pra todo mundo
que aquilo ali era o mundo.

Depois que Deus tudo fez
Raimundo se empossou rei
Rei do mundo Raimundo.

Passou o tempo e
não demorou muito
o homem concluiu que
Raimundo era Deus.

Mas hoje revelo a verdade
Raimundo é
a nossa necessidade.

Ramon Alcântara