28/10/09

Diet poet

Tire o ponto da vírgula
Tire o ponto da interrogação
Tire o ponto da exclamação
Tire o ponto do i
Evite a trema
Corte os dois pontos
Tire dois pontos da reticência
Evite o ponto final
Não use letras maiúsculas
Abuse da elipse a vapor
Prolixo extremamente proibido
Oração simples diurética
Poesia concreta crua
Linguagem virtual diet
About blank light
Tire o ponto da vírgula
Monossilábicos aconselháveis
Não consuma acentos salgados
Todo aposto será banido
Apenas no singular
Linguagem por sinais
Azeite de oliva
Tire o ponto da vírgula
Não escreva à noite
Não escreva bebendo
Toda digressão será castigada
Sopa com poucas letras
Se necessário não se exprima
Induza backspace
Tire o ponto da vírgula
Nada de parênteses
Nunca exemplifique
Morte à gorda prosa
Times subscrito 08
Espaçamento simples
Alface haikai
Verbo intransitivo
Tire o ponto da vírgula
Viva o minimalismo
Sonetos um no mês
Sem título
Não assine
Chá


_____

Enquanto isso:
Na gordura infernal,
um hominídeo demoníaco e gramatical
adverte:

- A vírgula não tem ponto, o ponto e vírgula que tem vírgula!



Ramon Alcântara

29/09/09

Nanoannnothing

nanovida
nanodor
nanopoesia
nanonada
nanomorte.

ela, pequena micro-escopofilia,
nanonão sabia,
mas foi
e tro-
pegou
na sua nanoarrogância
de se achar uni-
verso.

nanomônada.

ela,
embolou-se confusa
até seu nanofim.


embora
embole
até nossa orla
e nunca caia.

nanopenhasco.

e os transeuntes continuam,
pisam-na sem perceber
nas suas grandes vidas ordinárias.

ela nanosofre
na sua nanoeternidade virtual
aparece
só quando click here.

nanolink,
os navegantes não enxergam.

nanoonanismo
pós-moderno
e ultra-científico
com as pinças
de terabytes.

Ramon Alcântara

14/09/09

O susto

Ele estava lá
ficou por toda minha longa vida
sem eu perceber
até que um dia, virei e...

- Ai! Que susto!
- Calma, era só uma comédia.

Ramon Alcântara

09/09/09

Metodologia

E se eu não sou o que penso
porque não penso o que sou,
e se o tempo que conto
não conta para o tempo que passa,
e se o que acho que sei
não justificasse o que sei que acho,
e se eu estou no lugar
que está onde não estou,
poderia revoltar-me
contra minha consciência
contra o tempo e a consciência deste,
contra minha sabedoria, o tempo que lhe permite e sua consciência,
contra o espaço, o que sei dele, o tempo que o faz e a consciência disto tudo,
e assim questionar
criador, criação e criatura?

Ramon Alcântara

02/09/09

Precisa-se de mecenas

precisa-se de mecenas
interessados, enviar currículo.

Ramon Alcântara

26/07/09

A escadaria

Todo mundo sobe.
A escadaria.
Todos sobem a escadaria.
Todos homens, todas mulheres
sobem a escadaria.
Passo a passo,
com pressa,
veloz,
cada pessoa desse mundo
sobe a escadaria.
Uma escadaria enorme... monumental,
que possibilita a subida de todos.
E lá está: todos subindo a escadaria.
Todos, ao mesmo tempo,
sobem a escadaria.
Menos eu...
Eu não subo a escadaria.
Até tentei,
mas só consegui ir até o primeiro degrau.
Não pude ir mais.
Cheguei lá e voltei.
Eu desci a escadaria,
voltei da escadaria.
Enquanto todos,
todos, sem nenhuma exceção,
subiam a escadaria, eu descia.
Desço a escadaria.
Só eu não consegui subir.
Parei, vi todos subindo,
e desci a escadaria.
Todos sobem a escadaria.
Sempre vai haver gente subindo a escadaria.
Só eu desci,
só eu parei,
voltei.

Ramon Alcântara

25/07/09

Sensações na casa do ciúme

Esses dias me fizeram lembrar de um conto antiquíssimo que escrevi... revival.

___

Sensações na casa do ciúme

“Vi de longe aquela casa horrível, eu diria, horripilante. Janelas longas (modelos antigos), entupidas de cimento para barrar a vista, a luz. Portas de metal, talvez bronze, feridas pelo vandalismo daqueles que não gostavam da casa. Assim, lixos, fezes, crianças renegadas e alguns animais peçonhentos acumulavam-se defronte delas (eram duas). Percebi, logo que me aproximei, que o ar era fétido, um clima de vômitos com densidade menor que a do ar (que não perdia em valor, o valor dos vômitos (?)). As pinturas das paredes estavam numa luta, já agonizante, com o mofo, construindo assim uma arte jamais imaginável pelos grandes(?) artistas da história da humanidade. Mofo, tinta, rachaduras, desgostos estampados nas frases (como eram inúmeras) que os amantes deixavam lá. Bom! Já não me sentia bem, quis ir embora, mas percebi, só diante da primeira porta, que o caminho pelo qual eu havia vindo sumira. Nada existia atrás de mim. Aquela ladeira (quantas vezes eu subi?). Entrei. Oh! Como foi desesperador ouvir aquele som progressivo, que as entranhas da porta emitiam. Durou horas e horas, e eu me sinto à vontade de afirmar que ele ecoa em minha cabeça até hoje. Quando entrei, a primeira coisa que vi foi uma criança, que se encontrava à minha esquerda (sempre à minha esquerda, sempre!), ainda nova, tinha por volta dos seus 21 séculos. Ela olhava para mim, com aqueles olhos, aliás, olhos não, bocas, pois eles gritavam para mim, dizendo “Não entre! Não entre! Não entre!”. Não ouvi. A verdadeira boca, ao ver que eu me incomodava com o chão, emitiu as seguintes palavras: “Com o tempo você vai se acostumar”. Era refutável aceitar que o ínfimo tempo faria eu me acostumar com aquele chão, feito de madeira, que por causa da umidade, se encontrava coberto de bolor. A cada passo que eu dava, as madeiras afundavam-se, levando os meus pés ao fogo do inferno. Hoje eu não tenho pés, em grande parte devido a esse fato. Percebi que a criança já ria de mim, ria com um sorriso irônico, beirando a bestialidade, algo como um bilioso (?) (Nunca conheci ninguém bilioso). Vi, em destaque na casa, alguns quadros. Eram quadros imponentes, alguma coisa da antiguidade, que representavam o poder. Era um choque com todo o clima miserável que imperava na casa. Resolvi ver o que estava pintado naqueles quadros, mas como o corredor que levava a eles era um pouco longo, levei alguns anos para chegar lá. A cada passo, crescia em mim uma verruga de curiosidade. Hoje posso falar que se meu corpo se encontra cheio de verrugas (são milhares) isso se deve a esse corredor e a esses quadros. Cheguei lá, e para meu enorme espanto, consegui ver o conteúdo dos quadros: meus amigos. Todos estavam lá. Chorei, mas... Prefiro omitir essa parte. Meus amigos, eu não esperava. Eu não esperava, todos lá com as mesmas caras, aquela cara que tenta demonstrar os braços atados, mas que já estando aqui passaremos as mãos. E as mãos, todas, corriam todo o corpo dela, já não havia corpo suficiente para tantas mãos. Tantas mãos, as bocas emergiam buscando o corpo dela, as salivas formaram um mar, salivas, sedes, ondas, eu me afogando. Morri ali, mas a casa era grande, tive que continuar, mesmo morto. Os degraus da escada me chamavam. Então, morto eu fui. A princípio, pensei em desistir, pois minha visão estava ficando turva, minhas pernas enrijecidas, e em geral todo o meu corpo tornava-se decrépito. A decomposição estava chegando, e a passos rápidos, longos, atravessou todo o corredor atrás de mim. Quando, de lá de cima, ouvi gritos, uivos de sofrimento, mas ao final (nos cantos da boca) percebi um certo prazer. Era ela. Era ela. Era ela. Era ela. Era ela. (percebeu? 5 vezes). Comecei a sentir as 5 letras roçarem no meu estômago, vinham e iam, produzindo vômitos, iam e vinham, produzindo úlceras. Sentia-me bastante mal, mas os gritos continuavam e eu sabia que era ela. Subi. Durante a subida, percebi que a escada ia numa convergência, as paredes afunilavam cada vez que eu me aproximava da porta única, que se encontrava lá em cima. Depois de longos anos que passei, finalmente cheguei lá (não preciso dizer que cheguei rastejando). Abri a porta e lá estava ela. Lá estava ela. Sinto-me incapaz de descrever as sensações que tive ao vê-la. Chorei, mas... Prefiro omitir essa parte também. Durou algum tempo, eu a cortejava, deitada na sua cama de ferro (já enferrujada). Naquele colchão que se via claramente a guerra santa, entre ácaros, pulgas e cristãos de um lado; baratas, vermes e muçulmanos do outro. Mas não importa, pois lá estava ela. Aqueles olhos, castanhos, mel, fel, o ponto negro, o buraco negro, aqueles olhos. Lá estava ela. Olhos que me indagavam, às vezes fixos, às vezes desviantes. Olhos que quando somados a toda expressão do rosto (também indagadora) me faziam gozar. Mesmo morto gozei. Que olhos! Que sorriso, tão largo que ia de uma extremidade a outra dos braços de Deus. Um sorriso latitudinal, que permitia ver apenas parte dos dentes e da língua. Uma pequena parte, mas suficiente, muito suficiente para eu ver que dentro dela só havia luz. Que sorriso! Olhos, sorrisos, expressão facial de anjo (?) (nunca conheci um anjo). Eu a amava. Lá estava ela. Aqueles cabelos, sobre suas orelhas, fazendo o desenho da perfeição. A perfeição! Cabelos lisos castanhos, mel, fel... negros, buraco negro... Que cabelos! Não, eu não tinha olhos suficientes para ver tanta beleza em minha frente estirada numa cama nojenta, mas tentava. Fechava e abria os olhos para tentar ver melhor. Pele alva, rosada, rosas que não caberiam no Éden. Lisa pele. Que pele! Alva. Lá estava ela, o corpo. O corpo, o corpo, o cor...po, o cor...po, o cor...po, o c... não sou capaz, o corpo, o corpo, que corpo, que c...or...po! Ela era uma criança, um corpo de criança. E estava nu. Deitado. Na minha frente. Aproximei-me. Ele estava nu. Aproximei-me. Que corpo, que olhar, que sorriso, que cabelo, que corpo, que corpo! Uma criança nua. Era Ela. Aproximei-me. Eu iria beijá-la. Os olhos e a expressão continuavam indagando, o primeiro principalmente, pois estavam bem abertos. Eu iria beijá-la, quando ouvi algum barulho atrás de mim. Olhei para ela, já não indagava, já não sorria e ao mesmo tempo, acredite, de uma só vez emitiu vários nomes, reconheci todos, reconheci principalmente aquele jeito meigo de ela falar. Para cada nome, um tom de voz, e quando todos estavam misturados, criavam uma canção. A canção do meu amanhã, agora distorcida, agora distorcido. Vi que ela procurava algo atrás de mim, o barulho aumentava. Então olhei para trás. Lá estavam eles, meus amigos, todos meus amigos. Os quadros haviam subido a escada. Com muito esforço, todos estavam lá em cima. Não! Não havia todos. Lembro-me muito bem quantos eu vi lá embaixo, presos no alto da parede. Faltava um. Eles perceberam que eu notei a falta desse. Então se afastaram para que eu visse que ele havia ficado no meio da escada. Ela também viu e emitiu um suspiro suspeito (sempre suspeito, sempre!). Percebi que esse devia ser o que eu mais me preocupasse. Ele ria muito de lá de baixo, gargalhadas atordoantes. Gritava: “Eu já provei, eu já provei, eu já provei!”. Não consegui ouvir esses gritos por muito tempo, e ao ver nos olhos dos outros meus amigos escrito: “Eu também quero provar”, o meu ouvido começou a jorrar sangue, os meus olhos da órbita saíram e juntamente com eles meu senso e a minha tão útil ilusão. Virei e corri em direção a ela, e em alguns anos mantive minhas mãos apertando o pescoço dela, numa cena estática. Ela não podia ser deles, não podia. Não... Não... Apertava cada vez mais e mais... Apertava, apertava. Eu a matei por amor. Ninguém nunca a amou como eu. Eu conheci o verdadeiro amor, o amor absoluto, que como Deus, o nosso criador, dá a vida e traz a morte.”

Esse foi o relato de I... que durante um surto esquizofrênico matou sua namorada M... por estrangulamento. Hoje ele se encontra internado num presídio psiquiátrico da cidade C... e insiste nessa história, como se tudo tivesse ocorrido milimetricamente assim. Cada vez que ele é interrogado a respeito, conta esse mesmo relato, com todas as vírgulas, todos os pontos, sem trocar uma ordem de palavra. Seus parentes e os da moça afirmam que após uma manhã tranqüila na faculdade em que eles estudavam, ele foi para casa e duas horas depois apareceu na casa dela com um comportamento estranho. Ela estava lá com alguns amigos de ambos. Quando subiu, ele foi atrás e no quarto estrangulou-a até a morte. Foi pego em flagrante, porém foi constatado que não se encontrava em sua sanidade mental. Segundo os amigos, I... sempre havia sido um cara tranqüilo, que só de vez em quando, expressava um ou outro gesto de ciúme da namorada, mas tudo numa situação suportável. Ele tinha alguns amigos, apesar da sua mudança constante de humor, e na faculdade sempre teve ótimo desempenho. A mãe de I... disse que respeitava a individualidade dele, por isso não mexia nem perguntava sobre suas coisas. Depois do internamento, quando a mãe abriu o armário dele, lá encontrou inúmeros, muitos mesmo, escritos agressivos, todos relacionados com o ciúme que ele sentia por M... O que mais se destacou foi um conto intitulado “Sensações na Casa do Ciúme”, que contava as sensações de um garoto durante o surto esquizofrênico em que matou a namorada por ciúmes. Esse conto acabava com a seguinte frase: Esse conto acabava com a seguinte frase: Esse conto acabava com a seguinte frase: “As ninharias, leves como o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da sagrada escritura” (W. Shakespeare, Otelo).

Ramon Alcântara

23/07/09

Son pleur

À ma amie A.C.

Au moment
que son pleur
te défigurais,
je comprenais
que déjà te aimais.
Te aime,
te voulois,
mais ne c’est possible
te avoir...
Ne c’est possible,
seul me ai resté
fuir et me défigurer,
pleurant...
Solitaire...
Te aimant,
solitaire.

Ramon Alcântara

15/07/09

Minha melhor poesia

Releio minha melhor poesia constantemente
busco sempre ajeitar uma vírgula aqui,
dois pontos acolá, seus apostos e suas aspas.
Refino suas rimas com palavras requintadas,
reconstruo estrofes com mais-que-métricas.

Releio minha melhor poesia constantemente
dou um melhor sentido às suas idéias,
realço com intensidade suas imagens subjetivas.
Dialogo honestamente com contrapontos do eu-poético,
sublinho seu clímax, destaco suas ênfases.

Releio minha melhor poesia constantemente
buscando sempre torná-la ainda melhor.

Minha melhor poesia acorda cedo sempre
me dá um beijo e me convida para um café,
ri das minhas piadas e me abraça forte satisfeita.

Minha melhor poesia vai trabalhar sempre
com a certeza que traz o bem de nossa família,
me liga sempre para me dizer que me ama muito.

Minha melhor poesia deita sempre
sua cabeça no meu colo e me encoraja,
me acaricia me apoiando, me criticando, me aconselhando.

Minha melhor poesia me ama sempre
chega a noite com um sorriso espontâneo num rosto cansado,
se desvela, deita no meu peito e deseja me dar um filho.

Minha melhor poesia busca sempre
me tornar um melhor poeta.

Ramon Alcântara

10/07/09

Chuva de tags

No céu,
uma imensa nuvem de tags.
Daqui a pouco,
vai chover tags.

Onda terabytes,
pego minha prancha
e vou googlar
com meus uploaders.

Ramon Alcântara

06/07/09

Verbo constransitivo

Minhas letras exvazias
somam com o desatempo
e para entredelas temso
mesmoar
e para de inxestir que eu
fosserrar.




No ab-surdo,
mais que não ouço,
trago o impeditivo
de jamais realizar uma escuta.

Ramon Alcântara

20/06/09

Eu sou um nó

eu sou um nó
de tantos nós
outros formado
com você.

eu sou um só
de tantos sós
outros acompanhado
por você.

eu sou um pó
de tantos pós
outros incorporado
de você.

eu sou um dó
re mi fa e só
você me ouve,
só você.

todo nó eu sou
entre eu mesmo
e você: meu amor.
todo nó, todo amor
todo nós, todo amor.

Ramon Alcântara

19/06/09

Os desconhecidos









18/06/09

Como pena que cai

Incrível,
a potência do in-di-ví-duo
atuar sobre vida de outro.
E a cada encontro,
vão se re-construindo
conforme os ditos
e os olhados,
e os não-ditos olhados desviantes
acá também faceiam.

Incrível,
ser-me sempre,
mas ser-me mais ao vê-lo
e saber que ele decerto
é-se mais também, ao presenciar
toda essa trama.
E os outros olhados e ditos, ao redor,
nos fazem ainda mais.

Incrível,
está tanto à mercê
dos passos dos abraços.
E mesmo em silêncio,
e mesmo a solidão
nos fazem mais.
Uma constante e interminável
re-construção, re-constrição.

Incrível,
presos na vida que nos cerca,
emaranhados de subjetividades,
onde nem sequer a morte
nos pára.
A cada visita ao túmulo,
a cada palavra de lembrança e choro.
Mormente os Imortais,
que se puseram a ser interpretados.

Incrível,
e nesses instantes que me tomam,
apropriando-se de mim,
toda minha extensão corpórea
molesta-se.
Cada dito, uma afecção;
cada olhado, um rubor;
e cada não-dito, uma dor inamovível.

Como pena que cai,
sempre tentando declinar.

Ramon Alcântara

15/06/09

(sem título)

escrevo o poema, enterro o poeta.
nesse verso, re-inverto-me.
poema inverso de mim.
é meu fim, a primeira estrofe.

eu convexo, funesto-lhe.
enterrado vivo, vivendo tido.
quarteto qualquer do soneto.

em cada palavra, virgulo-me.
é o ponto final, as rezas do funeral.
é o título. vala.





e as interjeições,
ah! as interjeições!


Ramon Alcântara

14/06/09

3 poesias de amor para Carolina

Que palavras dizem meu amor? (1° poesia sobre o amor para Carolina)

Quando as palavras não vêm,
não vêm e o que vem, então?
Quando se está mais perto,
mas perto não de corpo, mas de coração.

O que o sorriso do olhar,
olhar de sorriso, tem de acusação?
Mesmo que se esconda, medroso,
com face, causa e as mãos.

Mesmo que fuja com as palavras
para os cantos dos contos de solidão.
E ainda mesmo que as palavras fiquem,
o que há em este não falado não?

Procuro as poesias não escritas...
Leio sempre mais, entre versos, o falar.
Entre as palavras, as letras...
Para completar a estrofe rimo por rimar (amo por amar).

Vêm outras palavras, esta poesia
e tudo que ela suporta trazer.
...vejo meu corpo vindo também
e com ele meu amor por você (explico).
____

Eu não sei descrever o que é amar (2° poesia sobre o amor para Carolina)

Amar é tão comum,
tão assim, tão sei lá...
Que poesia e muitas palavras complexas
jamais conseguirão representar.

Que poesia e muitas palavras complexas
conseguirão representar,
se acima de todas elas
há algo indescritível em amar?

Amar é ficar lado a lado,
feliz ou triste, só estar...
Que mesmo um ou outro calado
não, não dirão amar.

Então não há palavras
nem silêncio suficientes para o alcançar?
É... pois tudo isso vem depois de tudo
e tudo, depois de amar.
____

Lágrimas (3° poesia sobre o amor para Carolina)

Você perfurou meus dois olhos.
Mas não com armas pontiagudas,
mas sim com a docilidade
de suas palavras e músicas (ouvi-te).

Dos dois furos emergentes,
estabeleceu-se um escoadouro.
E apesar de sua vasagem vim de fonte seca,
seu produto líquido é ouro... é tolo.

E é belo por isso... é choro.

Você penetrou-me pela janela.
Mas não como invasores desleais,
pois foi convidada, inquerida
pelos meus ouvidos e passos a mais (aproximei-me).

Do deserto antes intacto,
brotou-se e foi colhida afeição
e esta escorreu pelo meu rosto,
afluente do meu coração.

E é bela por isso, minha paixão.

Ramon Alcântara

13/06/09

Uma drágea de Poesia em 6/6 h

- O Dr. Contagotas receitou-me Poesia Tarjapreta para remediar minha dor.
- Uma drágea de 50 mg em 6/6 h.
- Mas estou escondendo todas debaixo da língua e as cuspo na lixeira, assim que vocês saem.
- Tem certeza de que deseja enviar 'Poesia' para a 'Lixeira'?
- Sim.
- A persistirem os sintomas...
- Eu juro que é melhor não ser um normal, se eu posso pensar que deus sou eu.
- Passe na enfermaria para ser aplicada uma injeção de Prosa.

Ramon Alcântara

12/06/09

Um adendo

Em tão pouco tempo
já se passou tanto tempo,
que o vento que estou vendo
cai lento, como lenço
que enxuga as lágrimas de dentro.
Atravessa-me, escrevendo,
canoas e remos, rio a dentro.
Tanto tempo! Que eternizemos
cada segundo que vivemos
e viveremos, nesse adendo
que sempre vem depois, de lento
e de um sempre Re-Vendo.
Bebendo, por ti, aqui fora, estou sendo
quem sou do meio para dentro.
Já nem me desfaço no tempo,
já nem me disfarço de vento, só lendo
o que só eu estou escrevendo, nesse adendo.

Ramon Alcântara

11/06/09

Tracey Thorn

Tracey Thorn.
Uma sempre poesia.
Um 12 anos. Uma
noturna. Um corpo
bobo e seus
orifícios rosados.
Uma pérola. Uma luz
40 Watt. Gelos e
incenso. Umas
preocupações
mundanas no canto de lá.
Toda criação desafiando
o criador com a delicadeza
da ponta dos dedos.
Uma mentira pela
anarquia.
Por aí acontecem
coisas de
inter-isso. Do
inconscientecomplacente. Tracey
Thorn.





ela ia pela rua, dançava, dançava, dançava, todos a chamavam de m a l u c a, ela ia pela rua, achava-se bailarina, os pés na ponta da corda no pescoço com a bacia d'água na cabeça cheia de lágrimas.

Ramon Alcântara

07/06/09

Os desconhecidos








06/06/09

< ou > ?

Ir pra lá >
Ou pra cá <
Nossa!

Há um espaço
tão grande,
que daqui –
o lugar do arrependimento –
não consigo me vê
lá na opção errada.

Ramon Alcântara

09/05/09

AnFn NothinF1 and The Big-world of Micro-soft

Ann Nothing é aquela boneca de pano costurada e remendada por diversas vezes (lembranças de band-aid). Braço de outra boneca, perna de uma outra. Com apenas um olho, caindo, disforme a toda face por ser de um urso de pelúcia. Vestido reaproveitado, folgado, encardido. Cabelo desgrenhado, os que lhes restam. Ann Nothing é aquele revolucionário radical, que mal percebe que está entranhado pelo que tenta combater. Traz no seu corpo a causa oponente, fede a seus rivais e não se sabe. A boneca de Ann traz em seu nome seu determinante e seu contrário e sua bagunça, como se estivesse sempre se levantando, se sacudindo, tapeando seus incômodos em um ato de se limpar, onde se dependuram as teclas. E o grande-mundo da pequena-suavidade é a caixa de geladeira que foi embalada essa boneca. Ácidos circulam em fibras ópticas, bombeando a CPU...

AnFn NothinF1 and The Big-world of Micro-soft

Eu sou AnFn NothinF1
F7uto F4lso da F3licidade.

Minha juventude não tem end
meus desejos page up
quando não entendo back space
mas quando me satisfaz caps lock.

Eu sou AnFn NothinF1
F7uto F4lso da F3licidade.

Print screen meu sorriso
venha comigo tab tab tab...
o que lhe ofereço alt gr
o que rejeito alt.

Eu sou AnFn NothinF1
F7uto F4lso da F3licidade.

Ctrl alt del este pudor
page down esta incerteza
à sua dúvida insert
à minha blank page.

Eu sou AnFn NothinF1
F7uto F4lso da F3licidade.

Home minha rebeldia
pause break sua racionalidade
nossas drogas sysrq
enter click here para ser feliz.

Eu sou AnFn NothinF1
F7uto F4lso da F3licidade

Num lock meu tesouro
scroll lock meus segredos
esc sua falsa tristeza
@narquize-se.


Pois se é ilusão controlar com as teclas dadas,
entre no computador.

Ramon Alcântara

06/04/09

O segundo suicídio kiriloviano de Ann Nothing

82 metros quadrados
10 litros de combustíveis
01 palito de fósforo
17 anos de vida
01 dú-vida
Sem sentido
Muitos gritos
Horas a fio de
Um infernal arrependimento.

Ramon Alcântara

20/03/09

O papel materializa meu fantasma...

O papel materializa meu fantasma que embora seja-não-nascido-nunca emerge quando morro - as vezes às vezes - e sou apenas matéria úmida da terra - lavoura - as páginas dos livros que escrevi

Ou ele vem do passado
ou ele vem do futuro
eterno não-nascido
um homem árvore
árvore morta
espectros
na matéria
das páginas
morto
espalho-me pelo mundo
como um fantasma
perambulo pelas bibliotecas

E quando o livro já estiver morto
e suas páginas forem orgânico da lavoura
já estarei como matéria consolidada
na bioquímica de suas gerações
atravessando sua história e sua herança.

Ramon Alcântara

______

"(...) o espectro é uma incorporação paradoxal, o devir-corpo, uma certa forma fenomenal e carnal do espírito. Ele torna-se, de preferência, alguma 'coisa' difícil de ser nomeada: nem alma nem corpo, e uma e outra (...)" (Jacques Derrida, Espectros de Marx, 1993)

23/02/09

Um adendo

pelas palavras de Carolina Alcântara

Em tão pouco tempo
já se passou tanto tempo,
que o vento que estou vendo
cai lento, como lenço
que enxuga as lágrimas de dentro.
Atravessa-me, escrevendo,
canoas e remos, rio a dentro.
Tanto tempo! Que eternizemos
cada segundo que vivemos
e viveremos, nesse adendo
que sempre vem depois, de lento
e de um sempre revendo.
Bebendo, por ti, aqui fora, estou sendo
quem sou do meio para dentro.
Já nem me desfaço no tempo,
já nem me disfarço de vento, só lendo
o que só eu estou escrevendo, nesse adendo.

Ramon Alcântara

19/02/09

Ex-voto

A desgraça
de graça
não tem graça
e nem é de graça
é batizada
na graça de deus.

Ramon Alcântara

16/02/09

Eu, parado, sorrindo, sentindo dor: maníaco estupor

Meu sorriso é de pedra: estático.
Já não posso escavá-lo como outrora.
Meus olhos, de espumas
do resto do imundo mar.
Meus passos e minhas mãos
se confundem com o ar.

Dessas pessoas ao meu redor,
uma é minha mãe - outra, o doutor.
Se incomodam com minha alegria,
ingerem-me drogas para sentir dor.
Tristeza soluciona euforia.
Me tiram de uma coagulada mania: estupor.

Meu sorriso é de aço: não quebra.
Já não posso uní-lo com os dos outros.
Colunas velhas que não se movem: minhas pernas.
Sustentáculos de um castelo envolto.
Minhas pernas e meus toques
jamais alcançarão meu corpo.

Estou tonto e o tempo não pára de passar.
O doutor desesperadamente grita-me:
“Aqui garoto: eu, sua mãe - e você onde está?”
Eu? Passou...
no rastro da minha mãe e do doutor.
Não dá! Não dá para eu me parar.

Meu sorriso se foi há tempos.
O que vocês observam é uma insistência doentia.
Meus olhos são de pó
do mar que evaporou... (um vento passou...)
Meus passos e meus toques
causam-me uma incômoda dor.

De repente vêm nuvens.
Ao contrário de tudo, num movimento devagar.
Nuvens incolores, brancas,
amarelas, vermelhas ou negras.
Com a qualidade que não tenho:
o flácido poder de chorar.

Meu sorriso é minguante,
que à noite vem espantar
tais nuvens chorosas,
que de lágrimas hão sempre
que se formar.
A lua minguante. O sorriso estático.

Minha mãe, eu e o doutor
ficaram desanimados na janela a observar
um garoto demasiadamente animado a sair correndo, correndo, correndo, correndo...
As crianças da rua corriam atrás...
Minha mãe corria atrás... (imagem triste!)
Cansaço demonstrou o doutor.
E eu fiquei na janela sorrindo
e não achando graça da minha dor

Ramon Alcântara

10/02/09

Meu Complexo de Édipo

estou no mundo
sob o prisma de uma cota
reservada à imbecilidade

vim ao mundo
pelo cu de meu pai






[como ficaria meu Complexo de Édipo?]

Ramon Alcântara

05/02/09

Temporalidade

Hoje eu esperei
por 27 anos
o trans-porte coletivo
mas o ponto leva
a outro ponto
em uma linha infinita
quando só queria
ir além.



é muito sol
é muito suor
para um corpo
só.

Ramon Alcântara

01/02/09

Epigrama sobre o abandono social

Colegas, tinha poucos.
Amigos, um pouco menos.
Depois, colegas, tinha menos.
Amigos, menos que pouco.
Hoje, não tenho ninguém,
a não ser a ti, a quem
confesso que estou louco.

Ramon Alcântara

30/01/09

Esse tapa-olho dói

Esse tapa-olho dói
cega meu sono
escurece a escuridão
dessas noites que doem mais.

O dedo da consciência insone
encravado nas costas dos meus olhos.

Estou cansado, isso me cansa.
Estou com os joelhos cansados
com sangue alheio.

Um campo de guerra
essa minha cabeça
esse tapa-olho
cega meus sonhos.

Quando uma cor impera
solitária
nada se define.

Todo esse sono insone
e o tapa-olho falho.

Estou tão escurecido.

Meus joelhos nas costas
da minha cabeça.

Quando uma dor impera
solitário
o dedo do tapa-olho
na minha consciência.

Essas noites claras insones
e os tapa-olhos
alheios,
esses que me abraçam.

Ajoelho-me
abaixo dos olhos,
na ponta encravada do dedo
incomodativo.

A noite não acaba nunca.

Quando sonho com um sono
solitários de joelhos
cansados, diante do tapa-olho
da cabeça
do coração
do dedo
da consciência
alheia
nas costas dos meus olhos.

Ramon Alcântara

26/01/09

Anverso

O poema é meu anverso,
o verso sou eu.

Ramon Alcântara



Enquanto isso...

Precisa-se de Mecenas!

Ramon Alcântara

16/01/09

Ann Nothing is vanishing

A brevidade da morte imanente de Nothing ausenta. Corridas pelos corredores. Lenços que caem, lençóis que escorrem tempos in-recordáveis. Procura-se. Despreocupa-se. A filha da filha com a filha da filha. Incertezas. Ann sempre por ali, por assim dizer, muda. Furtiva, esquiva-se pra dentro de si. Uma elipse inversa e sem definição. Reticente, verborragia seca. Sumindo. Ann Nothing is death, ninguém sabe. Ela não diz nada. Nasceu trancada naquele quarto, presa naquele computador. Ninguém saberá, nunca. Autista misantropa anômica. Dada, mais tão dada à libertinagem solitária. Chat. Is vanishing. Não como as folhas marrons de seus velhos cadernos, mas com o cegueira branca da luz do papel branco. Blank page.


Ann Nothing is vanishing

Quase nuvem.
Semi-nua.
Sem pele.
Toda de todos.
Quase qua-.
Quase -se.
Sumindo como se morresse.
Como se sofresse.
Como se esse.
Diz aparece, quando suja.
Como vírus de puta com dor velha.
Fossa sem fundo.
Azul negro buraco.
Ann é a inversão da esperança
que não é a desesperança
mas sim aquilo que faz
sentimento de não esperar.
É o negativo da espera.
A inversão da saudade
que não é o alento da volta
nem muito menos o esquecimento
nem muito menos a indiferença
nem muito menos o amor eterno.
Ann é o negativo da saudade.
Sumindo como vento desfolhando uma poesia de Cecília Meireles.
A ausência repetina daquele desapercepido que não havia ido,
fantasma lacaniano.
Quase morrendo de excesso de luz.
Ann chove.

É a letra clara no fundo branco.

É a vista do míope em estupor melancólico,
que só as vezes,
nos seus tempos que não se contam,
percebem as alucinações.
Ann is vanishing
blank page.
Com a ausência de sua pertença.
Lenços que voam.
Alphonsus de Guimaraens.
is vanishing.
EQM.

Ramon Alcântara

___

Blank Page (Billy Corgan)

Blank page was all the rage
Never meant to say anything
In bed I was half-dead
Tired of dreaming of rest
Got dressed above the state line
Looking for you at the five and dime
Stop sign told me to stay at home
Told me you were not alone

Blank page was all the rage
Never meant to hurt anyone
In bed I was half-dead
Tired of dreaming of rest

You haven't changed
You're still the same
May you rise as you fall
You were easy, you are forgotten
You are the ways of my mistakes

I catch the rainfall
Through the leaking roof
That you had left behind
You remind me of that leak in my soul
The rain falls, my friends call, leaking rain on the phone

Take a day, plant some trees
May they shade you from me
May your children play beneath

Blank page was all the rage
Never meant to say anything
In bed I was half-dead
Tired of dreaming of rest
Got dressed above the state line
Looking for you at the five and dime
But there I was, picking pieces up

You are a ghost
Of my indecision
No more little girl

15/01/09

A cumplicidade de Ramon

Cúmplice. 1. Quem tomou parte num delito ou crime. 2. Quem colabora em, ou participa com outrem de algum fato; parceiro.

1

Disperso,
despeço-me e me despedaço.
Sem notar que não foi só minha mão
que ali ficou com ela,
mas tudo que creio, tudo que faço.

2

Não vejo minha pele me encobrir.
Vejo minhas veias nos olhos dela.
Não vejo a dor do meu coração,
que há pouco estava aqui.

Por que estou lá?
Por que não estou aqui?

3

Por que estou lá?
Por que não estou aqui?

Todas as dúvidas apresentando-se
no sorriso já triste
da única amiga que tenho tido.
E assim me desfaço,
num suicídio em que
ela morre e eu sobrevivo.

4

Vou ao enterro de minha única amiga,
disfarçando-me de poeta
choro sobre o corpo dela,
onde meu corpo também jaz.
"Abre o túmulo e olhe-me:
Dize-me qual de nós morreu mais".*

Ramon Alcântara


* Cecília Meireles, no poema Elegia.

16/12/08

La-persegui

agora eu vou
inventar
a crise que já
tenho.

la-persegui
trilhando na frente
de suas sombras.

recomendando
a leitura de
nós
os mortos.

Ramon Alcântara


Nós os mortos
Denilson Lopes


10/12/08

Caquicajáemshangrilá

Cansadodesseblábláblá
dessechupechupechupe
dessevirá

Cansadodessemuuuuuudavaca
dessebambolabambolabambolê
desseroboticope

Cansadodesselengalenga

Vouplantarcaquicajáemshangrilá
caquicajáemshangrilá
caqui
cajá
em
shangrilá

Ramon Alcântara

23/11/08

E a mulher imagem-nada no mínimo instante de gozo do rapaz introspectivo

Por dentro dessa cabeça
passam bois, passam boiadas,
passam canoas,
muitas remadas
letras e palavras.

Por dentro dessa cabeça
passam ventos, passam furacões,
passam viagens,
muitos aviões
sentimentos e emoções.

Por dentro dessa cabeça
passam Quintanas, passam vinhos,
passam cantos,
muitos assobios
passarão e passarinho.

Por dentro dessa cabeça
passam gente, passam dúvidas,
passam retas,
muitas curvas
certezas e encruzilhadas.

Por dentro dessa cabeça
passam outras, passam mais,
passam mares,
muitos cais
agora e ademais.

Por dentro dessa cabeça
passam passos, passam passagens,
passam nós,
Ela mesma
é ficante e passageira.

Ramon Alcântara

18/11/08

Sobrestantivo

Na contra-mão
No contra-pé
A vida é
Um tropeço
Ao contrário

Ramon Alcântara

12/11/08

Scholé

Na escória
Não escola




Dos termos:

Escória é o sub-produto da fundição de minério para 
purificar metais
purificar metais
purificar metais
purificar metais
purificar metais

Escola vem de scholé, que significa lugar do 
ócio
ócio
ócio
ócio
ócio


Ramon Alcântara

30/10/08

www.ah!

www.ah!

Ramon Alcântara

27/10/08

Quando o amor se transforma em machado e sangue e muito sangue e bastante sangue

Estou aqui no meu quarto
com um machado.
Estou pensando em me cortar.
Vou começar pelos pés
depois vou subir para os braços.
Vou começar pelo
meu coração.
Vou começar pelos
meus pensamentos.
Isso é o que sobrou do seu amor.

Ramon Alcântara

26/10/08

Traição

Hoje ela resolve sair da toca.
Em busca da Culpa.

Hoje ela vai des-trair-se.

Ramon Alcântara

20/10/08

Um sono mais-que-humano

Passei toda minha vida
boooooooooooocejando
como se um sono
mais-que-humano
tivesse ficado para trás
como se todo
santo-dia
fosse posterior
à noite-vida
perdida
como se cambaleasse
para uma confortável
cama-vala.
Boooooooooooocejando
dois momentos:
a noite -
minha vida perdida,
o dia -
o presente.

Boooooooooooocejando
meu sonho-poesia.

Ramon Alcântara

16/10/08

acdd

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje! — NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §125.

acdd

antes de cristo
depois de deus
homens
preâmbulos
convalescem
seus intervalos
segregados
pela sua incompletude

Ramon Alcântara

15/10/08

Coloco-lhe no meu coração...

Coloco-lhe no meu coração e este põe-se a pesar.
Minhas pernas fracas tremem e eu caio, eu caio,
eu caio, eu caio, caio, caio...
E o estrondo do meu frágil corpo faz eco, faz eco,
faz eco, faz eco, eco, eco...

Ramon Alcântara

06/10/08

Pensamento de um palhaço melancólico ou O circo que alimenta o povo

No dia do circo, me faço lona e alimento o povo faminto...
Servem circo na mesa na falta do pão, e os populares, engasgados de tanto comer, vomitam gargalhadas eternas...
O primeiro soluço...

Ramon Alcântara

02/10/08

Esc_me & outras


Da leve insignificância

I’m soul
Sol
Eu sou só


e–Da continuidade virtual

I’m messenger
Password
Eu sou .com


SujeitoBarrado
/ramonlsa

Ramon Alcântara

___

Esc_me

Largo meus dedos no papel
Que vislumbro ao pensar em ti
Em minhas mãos
Dedilhadas.

Amparo a queda do pensamento
Com a in-posição do meu membro poético.

E os ossos do papel
Substitui meus dedos
Na escritura do próprio papel
De pele.

Ai! Como dói ser poeta sem dedos
E pensar
In
Blank
Page,
About
Page.

Densidade digital.

Ramon Alcântara

___

Re-pense fotologicamente



Se ao menos eles, ao se mostrarem, se vissem.








Re-pense fotolog-icamente.

Ramon Alcântara

___

Backspace

- Não entendo, como assim?

- Enquanto a maré estiver baixa pensemos na possibilidade do backspace.

Ramon Alcântara

___



Um grande poeta, que eu muito admiro sua poesia escreveu um livro recentemente, interessados:

Saiu finalmente o livro!!!!!!!
O Amor e Outros Pequenos Sentimentos.
Quem tiver interesse, pode fazer o depósito:
Caixa Econômica Federal
Agência 0996
Operação 013
C/C: 3273-3
R$ 23,00
Enviar o comprovante para moacircaetano@uol.com.br
Pronto!
Vovê terá no conforto do seu lar meu filho, autografado e cheio de carinho!


+ em: http://moacircaetano.blog.uol.com.br/

25/09/08

Dúvidas

Dúvidas em 1999

Felicidades ou tristezas, falhas ou proezas.
Sem entender a existência,
continuo a viver.
Sem entender a vida,
continuo a fazer, o que fizeram antes de mim,
sem entender por quê fizeram.
Ainda não sei onde começaram as dúvidas
e os outros, que pelas sombras percebe-se
que estão ao meu lado, também não sabem.
Duvidar do que nos falam não é errar.
Pois o saber não faz parte desse mundo.
E sem entender o saber,
continuo a duvidar.
Sem entender as dúvidas,
resolvi não existir e expeli do meu corpo
a minha essência, assim envenenando, sufocando
e devorando o nada que eu sei.

Ramon Alcântara



A 1° grande agonia pós-duvidistas

Eu sou algo mais
que corpo, mas não sou alma.
Sou algo mais
que alma. Que sou?

Pois se meu corpo adoece,
continuo sendo... (nada).
Se macula a minha alma. Contínuo.

Muito mais que escrevo:
a grande certeza...

Que penso: a agonia...

- Reler Dúvidas já não
me a-mortalizaria.

Esfarelando-me como
pó em dedos: a agonia...

Não termino a Poesia...

Ramon Alcântara


A 2º grande agonia pós-duvidistas

Fruto embrutecido.
Hoje sou então carvão.

Pedra carcomida.
Me debato com a minha exatidão.

Cinza e poeira.
Me espalho sem razão.

Encontrem-me,
vida que antes era em vão.

Ramon Alcântara




+ Misha Gordin: http://www.bsimple.com/home.htm

19/09/08

tab tab tab tab...

acabou minha caixa de incensos
o mundo continua aqui
ainda me sinto
eles não chegaram
a luz não faltou
os pêlos cresceram
com o resto do corpo

quantas crianças nasceram em mim?

nos tempos difíceis de escrever poesia
demora tab tab tab tab...
documento 1 de páginas infinitas
brancas
e chapter 9 ed motta repeat all
very good

e nada mais
e tudo menos
minimal
minibem
minipoeta
minivida
minimorte

de uma atmosfera tão minúscula
e tão intensa
e tão pesada de sustentar na percepção
como na energia nuclear
no in-stante vivido
na dieta grama-tical

tab tab tab tab...
um dia a luz falta
o mundo não continuará mais aqui
um dia eles chegam

comprar mais incensos

sempre há mais espaços para as crianças
fiquem por perto
tem comida na geladeira
delivery nos ímãs da geladeira

um dia eles chegam

tab tab tab tab...

Ramon Alcântara

30/08/08

Mas por que eles fico? (Amigos Imaginários # 02)

Eu uso minha poesia
para repelir aqueles
que não quero ao meu redor.
Seu cheiro agridoce,
suas feridas seculares decompostas,
seu gosto amargo áspero,
suas longas frases insensíveis,
sua constante presença inconveniente,
sua rola exposta obscena,
seus sintomas negativos psicóticos,
seu olhar desviante irônico,
suas grandes mãos fétidas,
suas repetições insistentes,
sua inocência ingrata fingida,
seus erros de digitação pueris,
sua fé em um deus interesseiro,
seus pêlos avantajados nas orelhas imundas,
seu rabo mal-lavado bem-quisto,
seu orgasmo de plástico branco,
suas digressões politicamente corretas,
sua incompletude preguiçosa,
sua barriga gordurenta hostil,
sua infidelidade genética
e tantos outros aspectos
que lhes são inerentes.

Mas por que eles fico?
Mas por que eles leio?

Quem responde por essa panacéia ao meu redor?

E quem são eu?

Ramon Alcântara



Em outro instante:


Onde eles fui?
(Amigos Imaginários)

E quando procurei,
já não havia nenhum
sequer...
Apenas cartas outras
com suas desculpas
sinceras.

E quando voltei, -
nenhum aqui também -
Pena!
Outras cartas apenas,
mais nada.

E quando fui mais pra lá, -
nada a respeito -
se dizia.
Lembranças restaram
sequer.

E sem esperança,
abri as cartas, -
Pena! Apenas - mais nada -
se dizia.

E fui, e fui, e fui...
sequer mais nada,
apenas caixas
vazias -
se dizia.

E cansado,
abri as outras, -
sinceras, mas
vazias.

E cansado,
coloquei as lembranças
e as cartas vazias
nas caixas vazias.

E cansado,
as enviei para lugar algum.
E quando procurei-me,
e fui, e fui, e fui...

Ninguém aqui também,
apenas um epigrama,
uma breve Poesia,
mais nada -
se dizia.

Ramon Alcântara

20/08/08

Ann Nothing in rainbows

[my videotape] [play] depois de tempos incontáveis sem notícias resolveram invadir a casa de Ann Nothing o que se viu lá foi o extremo do descaso da desistência um odor irreparável e sujeiras temporais misturavam-se com ratos e baratas pré-históricas um som tomava todo ambiente e se repetia eternamente como um mantra satânico só escuridão dela só se pôde saber a fuga pelos fundos peritos afirmam que o estado de inércia durava no mínimo toda sua existência como uma criação esquecida e relegada ao seu estupor de não se saber não se saber não se saber nem no espaço nem no tempo quem sabe um dia ela se entrega aos homens de bem [stop]

(Ann hoje mantém sua escapada incompreendendo-se assim correndo para além de um algo um algo assim arco-íris)


Ann Nothing in rainbows

Entre os livros rasos no chão profundo,
os científicos,
os sons do piano in rainbows
e os jornais velhos do velho João.

Entre o catálogo de discos
preferidos e imaginados,
os e-mails não lidos os blogs não idos
e as poesias rascunhos não escritas não-ditos.

Entre a ascensão da fumaça exitosa
do incenso de selvas e selvas,
as paredes das impossibilidades
e as roupas mal cheirosas de ontens eternos.

Entre todas as portas da frente,
entre-abertas,
a do fundo escancarada
e os invasores de mentes estraçalhadas.

Entre o choramingo dos outros,
irritadiço e deste mundo,
as cartas com confissões inauditas
e o vazio das razões.

Lá vai ela louca
bamba em sua dança paripasso
descabelada em teias de aranha
semi-nua sem seu corpo
semi-consciente sem sua ignorância
sem hímen sem tudo
sangrando
suicídios incontáveis
suando
ubiquidades.

Entre as milhares de personagens
masturbadas,
as vozes emaranhadas,
Ann Nothing on my videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape
My videotape


Ramon Alcântara

___________

Videotape (Radiohead)

When i'm at the pearly gates
This'll be on my videotape
My videotape

When mephistopholis is just beneath
And he's reaching up to grab me

This is one for the good days
And i have it all here
In red blue green
In red blue green

You are my centre when i spin away
Out of control on videotape
On videotape
On videotape
On videotape

This is my way of saying goodbye
Because i can't do it face to face
I'm talking to you
After it's too late
From my videotape

No matter what happens now
I shouldn`t afraid
Because i know today has been
The most perfect day i've ever seen

07/08/08

Coceiras nas costas dos olhos

#17: autismo

teus olhos não vêem
nada que bate um coração
arranquei o meu fora
como um ultimato

#13: pressão alta

teus olhos não podem
ficar nervosos
acredito piamente
em suas mentiras

#05: cegueira

teus olhos não vêem
nada ou pouca coisa
me coloro com tintas invisíveis
quando temos um encontro

#02: catarata

teus olhos têm medo
de alturas
meus joelhos feridos
mas continuo aqui em baixo

#16: insensibilidade


teus olhos são de vidro
e nada sente
como o anel que tu me deste
que se quebrou

#20: mombojó


teus olhos querem
fugir de mim
mas o mundo é tão pequeno
fatalmente vão me ver passar



Ramon Alcântara

25/07/08

Ann Nothing Spam

Ann Nothing is backing. Sempre esteve ali. Logos. On line. Anexo às nossas cor-respondências. Volta como um Spam. Roots inerente zeitgeist. Remoça a cada download. Embora sofra. Templates under templates. Acima de tudo, repetições. Ann o máximo do presente. Estanque. Leitor quadrificado. E o poeta. E as personagens fingidas. Duas coisas agradáveis ou nomes também. Escreve deitada sobre os sexos dos inocentes de inocência espacial. Nascida com o resto virado para a lua vermelho-ouro. Acima de tudo, dislexia e resignação. Cosmético caosmótico.



Ann Nothing Spam

Embarquei minha viagem
e fiquei nativa nua rebelde.
Chutei meus pés para longe distante
e fiquei com o cachorro doente inválido quase morto.
Rabisquei a caneta de ouro dezoito
e fiquei com a tinta azul fosco melada.
Atirei minhas mãos afora distante
e fiquei com a pedra e a poeira e a indignação.
Atirei a arma passional no inimigo homem
e fiquei com o projétil e suas utilidades obscenas.
Dormi o sono alado manso
e fiquei meia acordada e meia mais ainda.

Vi meus olhos abertos
e fiquei com Ele.

Vi meus olhos fechados
e fiquei n’Ele.

Abracei meus braços burgueses vagos brancos
e fiquei em um pseudo-solilóquio sozinha-mente (eu-ela).
Falei a língua e a boca hostil e carnuda
e fiquei com as palavras não ditas desentendidas miúdas.
Suicidei a morte de Deus
e fiquei eterna-mente com a minha (eu-ela).
Guardei tudo isso que acumulei nesta vida viciosamente Pumpkins
in a box of Nothing.

Fwd for you.

I’m backing,
save your self.

I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing
I’m backing

Ramon Alcântara

____

Play:

Doomsday Clock

(Billy Corgan)

Is everyone afraid?
Is everyone ashamed?
They're running towards their holes to find out
Apocalyptic means are lose among our dead
A message to our friends to get out
There's wagers on this fear, ooh, so clear
Depends on what you'll pay to hear
They're bound to kill us all
In white-washed halls
Their jackals lick their paws

Please don't stop, it's lonely at the top
These lonely days, will they ever stop?
This doomsday clock ticking in my heart
Not broken

I love life every day in each and every way
Kafka would be proud, to find out
I'm certain of the end, it's the means that has me spooked
It takes an unknown truth to get out
I'm guessing that i'm born free, silly me
I was meant to be from my knees

Please don't stop, it's lonely at the top
These lonely days, will they ever stop?
This doomsday clock ticking in my heart
These lonely days, will they ever stop?

We gotta dig in
Gas masks on
Wait in the sunshine, all bug-eyed
If this is living?
Sakes alive!
Well then they can't win
No one survives

Is everyone afraid?
You should be ashamed
Apocalyptic screams mean nothing to the dead
Kissing that 'ol sun to know all there is
Come on
Last call
You should want it all

It's lonely at the top
These lonely days, will they ever stop
This doomsday clock ticking in my heart
These lonely days, will they ever stop
This ticking in my heart
Is everyone afraid?

10/07/08

Eiva

Se eu pudesse me suicidaria todo santo-dia

As andorinhas
de papo azul anil
descem pelos orifícios
do chuveiro
e escorrem
como morcegos
pelo ralo do banheiro
enquanto as personagens
dos meus livros
se banham...

Ramon Alcântara
_______________

Acerca do dia que Monsieur Breton foi acometido por uma câimbra de nó borromeano

A ignoranciência da Poesia é saborosa
e vicia como as gorduras da carne da vaca
e mancha as nossas camisas de seda
e misturada com sub-alcóol etílico
se re-des-faz constantemente.

Embora ainda precise dos seus
Livros Sanguíneos e seu
Leite Materno.

Como bestial este sorriso espermatozóide!

O som mudo em bocas
vegeta a mesma inércia
da corrente des-criação divina.

A ignoranciência retoma a vagina de escrever.
Como deixar-se deitado na pequena ventilação
entre sua pálpebra e seus cílios
em um piscar ordinariamente cedido
entre outros.

Onde o tudo se permite.

Ramon Alcântara
__________________

Eiva

Aqui
toda Poesia
consumida
antes é
flambada
no inferno.

Os rascunhos
guarda-napos
coletivos.





and it wears her out
and it wears him out
and it wears me out

Ramon Alcântara

20/06/08

Desdisfarce

Está aí,
nós fechamos os olhos
mas continuamos vendo.
Está aí,
falamos de outros assuntos
mas continuamos dizendo.
Está aí,
nos desviamos
mas continuamos indo.
Está aí,
buscamos outras coisas
mas continuamos achando.
Está aí,
nós sentimos diferentes
mas continuamos com o mesmo sentimento.
Está aí,
nós pegamos objetos
mas continuamos nos tocando.
Está aí,
nós sorrimos
mas continuamos sem graça.
Está aí,
nós disfarçamos
mas continuamos demonstrando
tudo que não era para.

Ramon Alcântara




Está aí, em cima da mesa, dentro dos livros...



_________________________

Bônus:

Coceiras nas costas dos olhos

#19: insônia

teus olhos não
querem fechar
acho que você
finalmente se apaixonou
tarde demais...

#08: astigmatismo

teus olhos não vêem
a claridade
à noite me queimo
com uma cuba de gelo por perto.

#10: esquizofrenia

teus olhos vêem
o que não existe
desde então me escondo
em lugares imaginários.

#04: estrabismo

teus olhos não querem
me encarar
mesmo com torcicolos
me farei visto.

Ramon Alcântara

30/05/08

Andaimes de bolas de sabão

Estou com os hormônios a flor dos ossos.
Estão sendo corroídos.
E o que me sustenta são as curvas do desejo.
Com o bulbo e o cerebelo arrepiados.
Há uma fissura na minha Escolha.
Parte no selim, o resto no guidom.
As veias tremem ansiosas.
O que me sustenta é o dis-curso, des-vio.
Procura-se minha alma.
Última vez que foi vista estava moribunda
ébria vagando melancolia em um sonho alheio.
Que me sustenta são alguns andaimes.
Re-encosto cambaleante uma mão nesta poesia
e a outra nas dúvidas de 1999.
O fio sob meus calos é a volúpia mentirosa dos materialistas.
Sustenta-me o império poético.
As bolas de sabão suspensas no ar
presas a finos barbantes que na outra extremidade me têm
inclinado em um penhasco.
Sustenta-me o tempo que ainda se conta nesse instante.

Ramon Alcântara

15/05/08

Eu, o poeta e a pedra

Essa poesia tem mais ou menos cinco anos. A de Carlos tem 80 anos. O que arrasta definitivamente pra longe é saber que antes do homem, Deus fez a pedra e que a Poesia subjaz a Criação.

Eu, o poeta e a pedra

Eu conheço a
pedra do poeta.
O poeta conhecia
a pedra que lhe cabia.
A pedra não conhecia
nem a mim, nem ao poeta,
pois do seu caminho ela não saía.

Havia uma pedra no caminho da pedra.
No caminho da pedra, uma pedra havia.
A pedra, concluo, nem se quer se movia...

Eu conheço o
poeta da pedra.
A pedra não conhecia
o poeta que lha caberia.
O poeta não conhecia
nem a mim, nem ao próprio poeta,
pois da sua poesia ele não saía.

Havia um poeta no caminho do poeta.
No caminho do poeta, um poeta havia.
O poeta, concluo, nem se quer se movia...

Havia um poeta no caminho da pedra
e no resto dos meus dias.

Ramon Alcântara

No diálogo:

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Incidental:

Pra que serve a Poesia?

A Poesia não serve,
a Poesia impera.
Outro o questionamento.
Quantas vezes, em uma única vida,
se acorda sem querer
e sem saber o porquê?

Ramon Alcântara

06/05/08

Blasfêmias

Ao contrário dos gases,
os Poetas não podem ser
nacionalizados.
Eles vazam de outros mundos
e sem limítrofes,
imaginárias são suas bandeiras.
Passam tão depressa e tão a ermo
que Deus
depois de infinitos dias
já passados
ainda não os criou.

Naqueles segundos,
sagrados insanos,
os tempos que produzem
eternidades in-localizáveis.
Seus sacrilégios:
não se calcular.

Ramon Alcântara

02/05/08

Não esqueça que te amo + Quando o dono da Venenaria se apaixonou por uma jovem senhora borderline

Quando o dono da Venenaria se apaixonou por uma jovem senhora borderline

Te amo de tal forma
que não consigo ir
que não contigo ficar
que não consigo rir
que não contigo chorar
que não consigo falar
que não contigo calar
que não consigo levantar
que não contigo cair
que não contigo largar
que não consigo pegar
que não contigo dormir
que não consigo acordar
que não consigo andar
que não contigo parar
que não contigo perder
que não consigo ganhar
que não consigo estar
que não contigo faltar
que não contigo negar
que não consigo afirmar
que não consigo viver
que não contigo morrer
que não consigo morrer
que não contigo viver
De tal forma que não consigo amar.


Ramon Alcântara
________

Não esqueça que te amo

Trancada no banheiro ela escuta-o murmurar seu nome… cinco meses ela pensa… cinco meses…eu não aguento mais... Desde a noticia do médico, o seu amor definha na cama.. Perdendo a lucidez na maioria do tempo... ele não consegue mais falar, e nos raros momentos de lucidez a comunicação é via escrita. Pra ela já não há mais sabor na relação, sente-se como uma escrava....lutou tanto por ele... seu segundo amor na vida... Perdeu noites, esteve ao lado... mas agora sente um ódio estranho, uma força que rejeita tudo que construiu... As lágrimas caem livremente em um incessante grito de dor... O som está ligado... toca a música que sempre amaram escutar juntos... sentada, segura fortemente a arma... o espelho não reflete o sofrimento... Tudo foi tão lindo antes da doença... as projeções, os planos, o companheirismo... Agora tudo tão nublado, as fugas se tornam constantes... as saídas, as traições que nunca imaginou fazer... o reencontro com o antigo amor, sem sabor... Há duas semanas ela sabia que tinha que resolver... Os gritos aumentam a cada momento, a dor é insuportável, a cabeça pende pro lado e as lágrimas já mancham seu rosto... Tudo está nublado... os dias se tornaram cinzas... não havia como imaginar que isto se tornaria uma maldição...Aperta as mãos, olha para a parede vazia igual a sua esperança... aqueles encontros suaves... as flores... as promessas... tudo era um nada agora... O rancor lhe surgia mente e a raiva agora era disforme... ela não merecia isso... Como pôde ser tão egoista a destruir-lhe a esperança... esse amor putrefado na cama que corrói todas as expectativas de um brotar de sorriso... Hoje é a noite... ela pensa e se contorce... já é tarde... ela esperou demais por uma nova chance que nunca virá... pensa nas desistências... na fuga para aquele local afim de que ninguém notasse sua desgraça... Tinha se exilado... perdia-se em si própria... todas as desesperanças eram vivas quanto fogo que consumiu as poesias que fizeram juntos... Um soco na parede a faz lembrar dos planos... iam fazer um ano... o vinho ainda espera na geladeira... pensa que nunca será aberto tanto quanto as cicatrizes desta dor sem fim... o silêncio paira na casa e ela assume que deve sair daquela poça de sofrimento... ergue-se e a mão vai ao rosto em vão na tentativa de secar-lhe o rosto... abre a porta e vê aquele corpo parado, estático... sente algo diferente no quarto, mas a sua dor é a dona das sensações... aproxima-se... levanta a arma... a mão treme como se o corpo tenta-se negar a decisão... pensa no fim de sua vida... pensa no tempo de sofrimento... ela não merecia isso... não iria aceitar... o gatilho é disparado... o grito é dela... as lágrimas continuam e o corpo parece não dar sentido as suas ações... senta na cama...chora.. a arma cai... respira... percebe o corpo ensaguentado que não reage...olha ao lado... o caderno que era o único elo de comunicação está no chão... os remédios revirados... Como num impulso pega as anotações... assusta-se... há algo escrito que ela não vira antes... os rasbiscos ficam nítidos

Meu amor não é suficiente e eu sei.

Você disse que a vida é demais para se pensar às vezes quando se está morando entre dois caminhosIsso que vivemos é difícil demais para se mexer quando parece que tudo te deu as costasE ninguém se importa em perguntar porque eu me sinto assimE eu sei que você se sente desamparada agora, e eu sei que você sente sóEsta é a mesma estrada, a mesma estrada em que estou.Mas o que você pensava que era real nessa vida se esfarelouIsso de algum jeito, te leva ao lugar erradoE agora você fica tentando, tentando encontrar o lugar a que você pertencePercebo no seu cheiro suas mudanças... na falta de sorriso seu sofrimento...
Não sei se você me culpa, mas eu me culpo muito... tudo que sonhamos nunca se realizará.
E eu estou aqui te prendendo, enquanto vejo você mudar, a vejo se esconder pra ter sua vida...
Isso já é suficiente pra mim e tomei uma decisão... deixarei você ir... esperarei meu último momento de lucidez... Não esqueça que te amo.


Agora não há lágrimas... um ódio sobe-lhe a face... o caderno cai... num ato impulsivo pega a arma... dispara mais vezes contra o corpo inerte... grita – Como pode fazer isso comigo? - ... desespera... resta uma bala... e a música para de tocar...

Jardson Fragoso
jardsonwtj@yahoo.com.br

08/04/08

Os Míopes

Enquanto seus olhos explodem
os meus se retroalimentam
inversamente
doando-me todo para ti
espelho do espelho meu
e se águas escorrerem
esticados e inchados
de dor e de amor
contida e contido
vamos deixar passar
fingir esquecer
como se tudo fosse em vão
e se me atravessarem
me perco nos reflexos
e refrato o que não é você.

Enquanto seu rosto estoura
não sei onde colocar minhas mãos
no rosto do espelho
e os estilhaços de verdades
inversamente
te fazem mais, mas você não pode
eu não posso embaçar
as duas realidades pequenas... lindas!
quem deveria correr primeiro?
sem saber que chegam e saem ao mesmo tempo
e que aquilo nunca perecerá
se despedem.

Enquanto seus lábios se falam
comprimo os meus sem respostas
inquisidor de mim, perdão, des-culpo
doce sua razão e toda essa paixão
nos meus ouvidos
escondo nossa contradição
inversamente
ouço mudo o que falo de ti
no instante que diz
existe medo mais bonito que eu?

Ramon Alcântara

___________

Bônus:

Fatalmente

Mombojó - Felipe S

Seus olhos querem fugir de mim
Mas o mundo é tão pequeno
Fatalmente vai me ver passar

Mas o mundo é tão pequeno
Fatalmente vai me ver passar

Posso até querer te falar como estou
Mas não vou
Prefiro ficar mudo
E deixar a dor sangrar em mim

Sozinho eu vou ficar melhor
Só por mim eu vou ficar melhor

Sozinho eu vou ficar melhor
Só por mim eu vou ficar melhor

Melhor, melhor, melhor
Melhor, melhor, melhor
Melhor, melhor, melhor
Melhor, melhor, melhor
Melhor, melhor, melhor
Melhor, melhor, melhor
Melhor, melhor, melhor
Melhor, melhor, melhor
Melhor, melhor, melhor

29/02/08

Toedium Vitae

Diante de tudo.

Dei um passo para trás.



E.



Nossa! Puta que pariu!







O Nada.


Ou fico de lado.
Ou implodo,
menos a casca.

Ramon Alcântara

07/02/08

In-di-ví-duo

Como pena que cai

Incrível,
a potência do in-di-ví-duo
atuar sobre vida de outro.
E a cada encontro,
vão se re-construindo
conforme os ditos
e os olhados,
e os não-ditos olhados desviantes
acá também faceiam.

Incrível,
ser-me sempre,
mas ser-me mais ao vê-lo
e saber que ele decerto
é-se mais também, ao presenciar
toda essa trama.
E os outros olhados e ditos, ao redor,
nos fazem ainda mais.

Incrível,
está tanto à mercê
dos passos dos abraços.
E mesmo em silêncio,
e mesmo a solidão
nos fazem mais.
Uma constante e interminável
re-construção, re-constrição.

Incrível,
presos na vida que nos cerca,
emaranhados de subjetividades,
onde nem sequer a morte
nos pára.
a cada visita ao túmulo,
a cada palavra de lembrança e choro.
Mormente os Imortais,
que se puseram a ser interpretados.

Incrível,
e nesses instantes que me tomam,
apropriando-se de mim,
toda minha extensão corpórea
molesta-se.
cada dito, uma afecção;
cada olhado, um rubor;
e cada não-dito, uma dor inamovível.

Como pena que cai,
sempre tentando declinar.

Ramon Alcântara


Enquanto isso:

Egoísmo

Cada célula minha só pensa em si mesma...
Escuto runidos, sinto cócegas, caimbras, arrepios...
Hoje haverá guerra de novo, guerra que só eu morro...
E aqui fora, se extende em profusão as deles, células do Outro...
Um profeta um dia afirmou que cada própria e indiossincrática guerra acabará com todos...
Escuto canhões, sinto medo, pena, arrepios...
Hoje haverá guerra de novo, guerra que nem eu, poeta, corro...

Ramon Alcântara

26/01/08

Jazz is the blues

São as crises
Agora mais constantes
E o quarto
Mais escuro
E o sax
Cada vez mais baixo
É a foz nascente
Desde antes
E o poço
Com o buraco
Mais gozo
E o violino cada vez mais piano
São as crises
Agora mais longas
E as paredes
Mais próximas
E o sexo
Escorregando
Sobre mim
Cada vez mais contra-baixo
É o gozo
Cada vez mais pouco
E o celo
Ainda mais grosso
São as crises
Agora mais graves
É o rio que não corre
Nem fica ralo
Cada vez mais lodo
E a cama
Mais tudo
É a voz
Que canta do fundo
São as crises
Agora mais surdo
Mudo turvo e curto
Ainda mais tristes
As pessoas que dançam.


Ramon Alcântara

16/01/08

Fwd_me ou O Drama do poeta virtual

Fwd_me, fwd_me.
Post_me, post_me.
Caps lock_me, caps lock_me.
Read_me, read_me.
Spam_me, spam_me.
Load_me, load_me.
Orkut_me, orkut_me.
Coment_me, coment_me.
Enter_me, enter_me.
Link_me, link_me.
Fwd_me, fwd_me.
Fwd_me.

Ctrl + Alt + Del_se.

Ramon Alcântara

06/01/08

Amigos-Livros e Livros-Amigos

Aos meus Amigos-Livros e aos meus Livros-Amigos.

Inicia-se mais um ano e aproveito para abraçar todos aqueles que das mais variadas formas contribuíram para me fazer Poesia. 


_____

Jardson Fragoso

Pó. Poeira. Nada.
Vai. Fui. Acabando-se.

Vácuo...

Vento. Nuvem. Oco.
Passo devagar. Leve. Levado.

Eu sou pele.
A fina pele. Dele.

A casca. Acabando-se.

Quando só resta a casca.
Eu sou a pele dele.

Pó. Poeira. Nada.

Melancolia
De quem não con-segue...
Vai-se. Vai-se.

De quem sempre é o mesmo.

______

Jardson Fragoso II: O poeta e o monstro

Nunca e sempre em algum lugar
e em lugar nenhum,
esperando a resposta
da pergunta que não te fiz,
com minha farda poética,
meu fardo é ser feliz,
ando parando de continuar seguindo,
e volto de e pra onde não vim e fui,
para matar a saudade
que não lembro se estou vivendo,
pois sou assim,
e tudo que faço pra não ser,
é sendo, fragoso,
sou verso sem reverso
e não tenho estrofe,
sou a ferida de quem ataca,
o atacado e o golpe,
nunca e sempre em algum lugar
e em lugar nenhum,
da melancolia conto a poesia
de se encontrar, de tanto procurar
e a angústia de saber
que a gente sempre pode ser melhor.

Ramon Alcântara

17/12/07

Se o Todo é o Ermo, não há a possibilidade de desenhar a borda do círculo ou Microssociologia de um flâneur ex-crito no círculo


e
ainda assim
mal acompanhado
vou andando por ali
com minha mala desalçada
que mais parece um baú,
uma caixa pelo avesso.
Dentro levo o peso da minha mente -
metade, isso;
outra metade, a kilo;
e o que não sei, enguiço.
Toda sua contrariedade
por vezes causa-me um terrível torcicolo.


e
ainda assim
mal acompanhado
vou andando por ali
no cume da minha escassa cadeia alimentar.
No almoço, como os loucos
que comem os lobos
que comem os tolos
que comem os poucos
que ainda se alimentam de amor.


e
ainda assim
mal acompanhado
vou andando por ali.
Às vezes com pressa sorrio
do palhaço esquizo-irônico
que usa diariamente sua maquiagem às avessas
e encara seriamente a platéia
que nada entende, mas bestiamente ri.


e
ainda assim
mal acompanhado
vou andando por ali
com minhas velhas roupas
desgastadas, maltrapilhas
não pelo uso, pela idade do tempo
mas por seus pensamentos pesados
complex life indigo blue.


e
ainda assim
mal acompanhado
vou andando por ali.
No fim do dia fico sóbrio
com as praças e as estátuas e os pombos
mas logo em seguida
no início da noite, entro nos grupos dos humanos
com uma máscara da Woddy Allen:
- Vocês estão contando piadas que nem entendem, caralho!


e
ainda assim
mal acompanhado
vou andando por ali
meio empenado
meio na ponta dos pés
sorrateiro, de soslaio
meio contragosto
sabendo que não posso
andar por aí, onde sou mortal
nem andar por aqui, onde sou imortal.
Continuo sempre andando por ali
equilibrando-me
para não cair da borda
nem voltar pro meio.

Ramon Alcântara


_____________

Bônus:

Identidade na pós-modernidade

eu sou único.
mas, ultimamente,
tenho sido único
elevado ao círculo.


eumemateiportudoelesmematarampornada!

Ramon Alcântara

05/12/07

Escritos Momentos Pequenos

_______

estudos dos animais

filhos de algures
e alhures ao porvir
presentemente
emanam bolas de ar
da sua epiderme
como sintoma

poetas malditos

poesia que escrevo
queima antes
no inferno
poesia que leio
começa a queimar
pelos dedos

tempo e amargura

fotos antigas
e começo a desconfiar
que um dia fui criança
que um dia nasci

insônia existencial

não dormi
e não acordei
de olhos abertos
meu pesadelo só eu sei

Ramon Alcântara

07/11/07

Ann Nothing masca Ping-Pong e admira Masseter Suite - Heleno Bernardi

Masca o chiclete
como se seus anseios
juvenis febris clitóris.

Estoura a bola
- mela nariz -
como se suas mães e mais.

Enrola na língua
e no piercing
como se ser coerente sempre.

Masca masca masca masca
como se Freud explica
no play: Cansei de Ser Sexy.

E outras bolas e mais além.
E outras bolas - Tudo bem?!
E o mundo século vinte e um.

Gosto algum.

De repente - desatino olhar -
Nothing não sabe:

Cospe no chão
e pisa
e leva o incômodo
na sola do pé?

Ou

Coloca na cabeça
do próximo otário
o Ping-Pong de existir
e não se saber?

- Ora bolas!!!

Ramon Alcântara

______

Heleno Bernardi

Em: http://www.rioartecultura.com/helenobernardi.htm

Heleno Bernardi, uma das revelações da exposição coletiva Posição 2004, realizada no Parque Lage em julho de 2004, reúne em sua nova exposição, "Masseter Suíte", cinco trabalhos fotográficos com imagens de partes do corpo – braços, mãos, crânios - revestidas de pedaços de chiclete. São quatro imagens em grandes formatos e uma série de 49 múltiplos especialmente feita para a mostra.

“Bernardi intitulou todas as suas fotos com os nomes em latim dos músculos da mastigação. Masseter, Buccinator, Genioglossus e, bastante significativo, Temporalis, um músculo temporal. Os pseudomúsculos de chiclete substituem a verdadeira musculatura de um crânio, por exemplo, que tanto poderia ser um achado arqueológico quanto uma relíquia ou um objeto de cena”, escreve no folder da mostra a crítica Julia Brodauf, que assina artigos nos jornais alemães Berliner Morgenpost e Die Welt.

Heleno explica que apesar do suporte do trabalho ser fotografia, o processo escultórico de construção dos objetos e situações, através da mastigação, é parte fundamental e presente na experiência do confronto com a obra. Ele mastiga cerca de 400 gomas para produzir cada uma de suas peças. "O chiclete assume no trabalho um aspecto visceral. E assim, se associa também ao registro de tempo e à transformação pela qual o corpo passa durante e depois da vida. O que me interessa neste material, e em sua junção ao processo fotográfico, é a possibilidade de reflexão sobre os conceitos de transitoriedade e perenidade, além da construção de uma poética que se apresente com contundência plástica. A fotografia, como parte do método, completa e expande estas questões.", explica o artista.

Foi a partir da observação dos chicletes nas calçadas das ruas do Rio que Heleno descobriu o material que usaria em sua obra. "Ele é mastigado, todo o seu aroma, cor e sabor são extraídos e depois é cuspido. Torna-se objeto rejeitado, mas ainda permanece presente, sedimentado ao chão das cidades. Ele se recusa a ser descartável. Além disso, como o chiclete é uma borracha, já foi fóssil. E sua trajetória, desde sair de dentro da Terra até voltar para a superfície tendo o homem como agente, cria um complexo jogo de associações, que me nteressa", observa o artista, que faz relações entre vida e morte no trabalho.

Chicletes mastigados, manuseados e esticados se misturando a partes do corpo como o crânio podem causar uma impressão de horror. Para a crítica Julia Brodauf, “a caveira de Bernardi é assustadora em sua dimensão, mas não chega a ser aterrorizante. As caveiras sempre ostentam um sorriso, e a desta foto também sorri, bem-humorada em seus tons de rosa. Ao seu lado será colocado um braço envolvido em uma luva de goma de mascar. Uma outra foto mostra a intensidade da vida, na força com que o chiclete é estirado. Não existe um mergulho melancólico na contemplação do tempo e da efemeridade. Bernardi associa a morte ao crescimento, e até mesmo ao viço, ao químico e ao indestrutível. Entretanto, a morte permanece, mascada, úmida e fibrosa: repugnante, mas de uma forma infantil e fascinante, que é muito engraçada”.


Visitem: http://massetersuite.com/

______

Enquanto isso:

Cansei de Ser Sexy: http://www.csshurts.com/

01/11/07

Poesia//Futebol//Subjetividade

Raça Rubro-Negra

Rubro é meu sangue.
Negra, minha pele.
Minha alma é rubro-negra.
Raça, minha paixão.
Eu sou uma nação!!!

Ramon Alcântara

27/10/07

Ainda lendo a Poesia de ontem

A poesia de suas mãos, de minha boca e dos pensamentos de um de nós ou dos dois

Qual a utilidade das minhas mãos?
Se eu não fosse um dos desistentes,
as deixaria cair em vão.
Mas por ser, isso nem torna-se preocupação.

Se as mãos dela estão soltas,
as duas – esquerda sobre coxa
esquerda, direita sobre coxa
direita – por que levantar as minhas?

Já não preciso de minhas mãos.
Vejo, desistente e cansado, caírem ao chão.
Fico olhando disperso, ambas.
Tão disperso estava eu que me abaixei para pegá-las.

No entanto, sem mãos como as pegaria?
Fiquei sem poder significar aquele instante.
Olhei para ela, continuava do mesmo jeito,
mão esquerda, mão direita, vacilantes.

Ou seja, não tenho mais minhas mãos
e as mãos dela tornaram-se inativas.
- Recolha minhas mãos, Amada!
Ela não me ouve, não se ouve, não se sabe.

Entro assim em um drama.
Sinto uma incessante e sequenciosa vontade de poetizar.
Mas, com que mãos?
A angústia torna-me ainda mais criativo, mas... as mãos?

Grito a ela, um grito rouco, mas... ela?
Até que decido agarrar as mãos dela com minha boca.
E nessa cena trágica, com todo meu frágil esforço,
ela escreve minha poesia.

Minha poesia fala
das desistências, das minhas, das dela, mãos.
Fala de mim, fala dela...
Começo a notar que as palavras não eram as que eu escrevia.

Percebo então que é ela quem escreve.
São palavras mudas, invisíveis, intraduzíveis.
Mas eu as vejo e traduzo no rastro de tempo que se mostram.
A poesia é minha ou é dela, então?

Minha boca na sua mão,
sua mão sobre o papel.
Meus pensamentos passam, em movimentos,
da minha boca às suas mãos... minha ou dela?

Mas o papel... as palavras são outras.
Me angustio ainda mais.
Entro assim no segundo drama.
Volto meus olhos ao rosto dela.

E de uma forma absurda, percebo-me, disperso
ao notar que ela já não estava lá.
Existia apenas as mãos dela.
Seu corpo estava inerte, caído junto as minhas mãos no chão.

De quem é a poesia, então?
Quem escreveu essa poesia?
Como estava sem poder fazer grandes reflexões,
larguei a poesia, dando ao poeta Vento que passeava por ali naquele instante.

Voltei a meu canto, sem me saber.
Fiquei a observá-la, sem se saber.
Nada parecia tão importante,
nem as milhares de pessoas circundantes... também, representantes.

Ramon Alcântara

__________

Eu, parado, sorrindo, sentindo dor: maníaco estupor

Meu sorriso é de pedra: estático.
Já não posso escavá-lo como outrora.
Meus olhos, de espumas
do resto do imundo mar.
Meus passos e minhas mãos
se confundem com o ar.

Dessas pessoas ao meu redor,
uma é minha mãe; outra, o doutor.
Se incomodam com minha alegria,
ingerem-me drogas para sentir dor.
Tristeza soluciona euforia.
Me tiram de uma coagulada mania: estupor.

Meu sorriso é de aço: não quebra.
Já não posso uní-lo com os dos outros.
Colunas velhas que não se movem: minhas pernas.
Sustentáculos de um castelo envolto.
Minhas pernas e meus toques
jamais alcançarão meu corpo.

Estou tonto e o tempo não pára de passar.
O doutor desesperadamente grita-me:
“Aqui garoto: eu, sua mãe; e você onde está?”
Eu? Passou...
no rastro da minha mãe e do doutor.
Não dá! Não dá para eu me parar.

Meu sorriso se foi há tempos.
O que vocês observam é uma insistência doentia.
Meus olhos são de pó
do mar que evaporou... (um vento passou...)
Meus passos e meus toques
causam-me uma incômoda dor.

De repente vêm nuvens.
Ao contrário de tudo, num movimento devagar.
Nuvens incolores, brancas,
amarelas, vermelhas ou negras.
Com a qualidade que não tenho:
o flácido poder de chorar.

Meu sorriso é minguante,
que à noite vem espantar
tais nuvens chorosas,
que de lágrimas hão sempre
que se formar.
A lua minguante. O sorriso estático.

Minha mãe, eu e o doutor
ficaram des-animados na janela a observar
um garoto demasiadamente animado a sair correndo, correndo, correndo, correndo...
As crianças da rua corriam atrás...
Minha mãe corria atrás... (imagem triste!)
Cansaço, demonstrou o doutor.
E eu fiquei na janela sorrindo
e não achando graça da minha dor

Ramon Alcântara

__________

Tentativa de significar as tardes sem sentido

Fundo-me ao tecido sujo do lençol.
Molho-o com a última rançosa gota do suor.
Afundo-me, então, na unidade úmida dessa podridão,
transformando-a, assim, na escultura da solidão.

Faz um calor absurdo nesse mundo... cama.
Meus pensamentos derretem-se... lágrimas.
Das minhas vozes, a única que resta, clama
por sua presença, na confusão... Diana? (deliro)

Mas a intensidade dos raios solares revela-me
que não há virgem, não há mármore, nem intocabilidade.
Revela-me também que esse meu sepulcro faz-me ainda mais vivo
e que tudo que existe nos pensamentos são possibilidades.

Construo, destarte, o grande amor... verdade? (pergunto)
E na mínima contagem de tempo próxima... mentira. (respondo)
Culpo-me ainda mais e o calor, como reflexo, aumenta.
... a cama já encolhe, o mundo torna-se pequeno.

Cama, lágrimas, suor, lençol... amo. (suspiro)
Pergunto, respondo, verdade?... amo. (deliro)
O calor está aumentando, a cama encolhendo,
e com ela, já rouco, percebo-me também sem pensamentos.

Sem pensamentos, caio da cama.
... escultura da solidão. (lembro)
... amo. (termino)
... não consigo...
Já é noite, ainda estou insatisfeito com o Fim da Poesia.

Ramon Alcântara

19/10/07

Ah!

A mulher começa lá
e o homem sempre está assim.

Os dois nunca se encontram -
ela no meio, ele no fim.

Ramon Alcântara

______

Enquanto isso:

"il n'y a pas de rapport sexuel" (J. Lacan)


______


Revival:


Son pleur

À ma amie A.C.

Au moment
que son pleur
te défigurais,
je comprenais
que déjà te aimais.
Te aime,
te voulois,
mais ne c’est possible
te avoir...
Ne c’est possible,
seul me ai resté
fuir et me défigurer,
pleurant...
Solitaire...
Te aimant,
solitaire.

Ramon Alcântara


***


Quando o amor transforma-se em machado e sangue e muito sangue e bastante sangue

Estou aqui no meu quarto
com um machado.
Estou pensando em me cortar.
Vou começar pelos pés
depois vou subir para os braços.
Vou começar pelo
meu coração.
Vou começar pelos
meus pensamentos.
Isso é o que sobrou do seu amor.

Ramon Alcântara

***

Coloco-lhe no meu coração...

Coloco-lhe no meu coração e este põe-se a pesar.
Minhas pernas fracas tremem e eu caio, eu caio,
eu caio, eu caio, caio, caio...
E o estrondo do meu frágil corpo faz eco, faz eco,
faz eco, faz eco, eco, eco...

Ramon Alcântara

05/10/07

Desistência Fúnebre

Já na adolescência, enquanto suas amigas iam admirar o poente, ela ia para os fundos e recostava-se para ser no ballet dos morcegos. Ali reclinava sua desistência... era ali uma desistente.

- O que faz aí sozinha filha?

(silêncio desistente)

- É uma poesia isso na sua mão?

(ainda silêncio desistente)

- Fez agora essa poesia? De quando é?

- Minha poesia é de sempre e é de nunca. (responde)

(chegam as amigas com olhares assustados e preocupados)

- Desistentes do mundo, des-uni-vos! (grita)



*****************


Desistência fúnebre

Quem diria...
minha história está chegando ao seu fim...
mas já não sou eu que escrevo, e sim a face mais cruel do destino...
era tudo tão belo (se eu soubesse como era belo assim, evitaria a passagem do tempo)... depois as coisas começaram a ficar estranhas, os acontecimentos emergiram, sendo colocados como sempre estando ali, escondidos, imperceptíveis...
hoje tudo é tão horrível, me vejo tão só...
vejo meus passos também parando, meu corpo também parando, meus pensamentos também parando...
tudo parando, acompanhando a desistência fúnebre da marcha que outrora fôra tão sublime...
vou parando meio contragosto, mas não tenho opção: continuar para quê? para quem?...
me cobro reações mais românticas, literárias, eu que sempre fui assim, mas a desistência é... é tão sem sentido, tão triste, sem sorriso, que não tenho forças...
o que tentei enquanto prezava pela caminhada foi inútil, apelo burro, improducente... lamentos, sim, ajuda, nunca...
só fiz...
nem sei as consequências do que fiz...
agora, para entender essa pertubadora contradição: o grande amante, inerte, sem ação, fico me pregando, cada prego uma dor, uma culpa...
estou fraco, quando preciso ser forte...
estou fraco, da forma mais vexatória para um dito amante...
entendo-me, impotente...
as mesmas mãos, que em conjunto, dadas, dando-se, faziam a caminhada, agora, trêmulas, só sabem passear pela cabeça, tocá-la, encontrar outras mãos, sem saber o que fazer...
não sabem onde ficar...
perdido assim, costuro meu coração, num serviço inverso, rasgando-o e fico a sangrar todos esses últimos dias da minha história...
sangro palavras desconexas...
sangro sorrisos aéreos, festas sem sentido...
sangro, desistente...
já não me acompanha, sigo só, espero a minha vez...
sangro...
sei que não vai demorar muito, só estou esperando o sinal...
o estampido ecoado lá...
o estampido ecoará aqui...
duas tampas...
dois buracos...
uma marcha finalizada...
porque fiz isso?, pergunto-me, depois...
já não sangro, não posso responder, no fim da história não há explicações, há...
há um límpido sentimento nas trocas de olhares de que não poderia ser diferente...
as mãos sempre estiveram tão juntas...
os passos, sincronizados...
o fim, antes não esperado, é o mesmo...
conto uma história paralela...
olhar desistente...
mãos desistentes...
andar desistente...
poucas palavras, desistentes...
expressão desistente...
um sentar/levantar/sentar, rotina desistente...
desisto também...
não haveria outro fim para mim, assim...
para quê? para quem?, explico agora, antes...
antes do estampido ecoar...
nesse instante todos se levantam e aplaudem, ele faz a reverência e as cortinas são fechadas...
ele volta ao tablado...
antes do estampido ecoar aqui também...
quem diria...

Ramon Alcântara

21/09/07

Rabiscos Transitórios

Mudei de lugar e a poesia desestabilizou-se com a mudança (como se em algum instante esteve estabilizada). Melindres. Estranho é fazer poesia em outro lugar. Hiato. De repente, meias palavras ou frases tão completas que não se sabiam e passavam por mim sem chances de compreensão. Vejo as poeiras descendo do alto aos poucos, mas tudo turva ainda. Surgem alguns rabiscos transitórios, ainda crentes de estarem em algum lugar.


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Rimbaud de supermercado

(livros, leite, sabão-em-pó...)

Acordei cedo
fui ao supermercado
comprar frutas finas
para meu amor
aproveitei e comprei
um Rimbaud.
Uma temporada no inferno.

***

Voltei logo
pra dormir,
afinal
amanhã é outro dia.

***

Passo meus dias
me dando gelo,
sem saber
que prefiro caubói.

***

Com Rimbaud
os dias
ficam mais pesados
mais travados.
O corpo mais pesado.
O pensamento
não levanta
da cama. A cabeça atravanca o resto do corpo.

***

Aproveitem os cantos
eles estão se confundindo
pelos meios e pelos fins.

***

E as donas-de-casa,
todas lendo Rimbaud,
enquanto seu lobo não vem.

Ramon Alcântara

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Fim de Tarde

O fim de tarde daqui
é maravilhoso!
Mas não aquele fim de tarde
com sol se pondo, natureza, andorinhas...
crianças voltando da escola...
Mas com varanda, casarões,
a cerveja que esquenta fácil,
radiohead,
o mar lá distante...
E a vida toda,
que vem como um documento recuperado.

Ramon Alcântara

07/08/07

Juliana

No lugar da vergonha,
ela tem um buraco
que quando coloco um dedo de curiosidade,
às vezes dois,
ela faz umas caras estranhas.
Ferida exposta,
às vezes dói.
Eu tenho um algo a mais
que quando ela toca,
às vezes eu,
também fico estranho.
Às vezes os dois,
às vezes o mundo.
E somos tão tolos
e somos tão frágeis.
Nós gostamos de assistir
na sessão da tarde A lagoa Azul
em dias de chuva,
ela vem escondida da mãe.
A arma de defesa,
papai guarda debaixo do colchão,
no lugar do medo.
Eu sei.
Será que se eu atirar em Juliana
ela vai fazer umas caras estranhas?
Vixe! Eu nem me toquei
e estou fazendo caras estranhas.

Ramon Alcântara

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minhas mãos vasculham
prazeres contidos
desejos, libidos.

Paula Taitelbaum
[Eu versos eu]

25/07/07

Sou preto e espelho o mundo

Essa poesia se fez presente na minha obra tempos atrás e até hoje guarda sua especialidade, seu papel marcante e diferenciador. Um outro lugar. Agora estou redistribuindo-a com novos caracteres. Um parceiro de Poesia, Nano Costa, fez uma com a poesia, transformando-a e produzindo nova arte sobre.




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Mais sobre Nano Costa em:

http://literatura.nadadenovo.zip.net/index.html


http://literatura.zip.net/index.html


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Sou preto e espelho o mundo


sou preto espelho sujo
que preta puta cheira
a coca branca morte
da sombra preta pele
e o grito pobre escuta
os brincos surdos dele
e mesmo preto puro
a puta a pele queima
e seco sendo o injúrio
a droga mancha e fere
acorda povo burro
da guerra que elicia
e mesmo sendo caco
a coca no preto espelha
o medo mundo luto
da luta nobre preta
que pinta o branco tudo

sou preto e espelho o mundo

que a puta pobre cheira.

Ramon Alcântara

18/07/07

Ann Nothing, so far.

Estética pós-moderna. Tudo e todas e todos em uma poesia. Um diálogo com Billy. Personagem das Personagens da Personagem Poeta. Tenho um carinho especial por essa menina, a despeito do Julgamento. Mais que indefinível, uma definição procrastinada eternamente, num exercício de gozar. Um poeta afirmou: Misto de isto e aquilo, o homem é quase nada. Eu diria que Ann é esse misto mais aquilo e mais isto e mais isso e mais algumas coisas, so far. Por assim, rendi-lhe homenagem nesse novo lugar.


****

Ann Nothing, uma personagem nascida de interseções alheias e próprias. Anda por aí, um pé em cada verso, dançando distraidamente pelas poesias. Com suas roupas, calça apertada, botas grandes e camisão (com alguma mensagem). Alguém que não se sabe e ainda outras pessoas. Daquelas que nunca se diz. Ann Nothing, elas e eles, mantendo-se. A dubiedade. Personagem das Personagens da Personagem. Ann Nothing é acima de qualquer consideração uma conversa discreta que não se ouve. Há mais. O não-dito olhado desviante a faz. Nas veias dela corre sangue de plástico branco. Ann Nothing tem o gozo do nascimento.

A triste vida de Ann Nothing


E possuía tantas metades,
tantas metades
que já não sabia
por onde começava,
onde terminava. Fugidias.
Onde estava.

E aqueles band-aid,
tantos quereres,
- of a broken heart, of a broken heart.

Mas a máscara lhe dava uma cara,
e emendando-se apresentava sua pessoa
em lugares que Aristófanes não freqüentava.

E somente às vezes,
dava por se esconder na sua webcam,
exibindo-se em telas alheias,
na .compainha de seu
Admirador Secreto.

Sempre falava de amores,
- of a broken heart, of a broken heart.


[certa feita, chegou uma msg no celular... não se sabe quem enviou, quem recebeu.]


****

Com seu button on/off. Ann se completa toda na segunda. Ela mesma. Reflexo. Glass and the ghost children. E esvazia-se ainda. Para provocar ânsia de vômito. E derrama alegria nos seus seios alheios. Corpo meio vazio, meio cheio. Por que nós chateamos tanto? – indaga. Assim se faz palavras que se encontram para se entender. Mais. Períodos de oração. Fé virtual num poeta divino (seu admirador secreto). Tão mocinha ainda. Penugem vulgar. O que faz. Mas no outro dia arrepende-se e promete que ela ainda namora. Juntar as partes desiguais. Sangra os dias. Olha o espelho quebrado. Olha-se no vidro. Ann olha para Nothing. Nothing se esconde dela. De si. E no outro fim de semana promete, ela se mudará. Casa nova. Ouvir canções mais delicadas, de acordo com sua tenra idade. Tantas horas! Pra quê servem? Cair e sentar no sofá. Escrever e apagar como no ctrl+alt+del_se do poeta. Se maquiar por uma década com as cores mais densas. Fingir mulher. Trepar-se. Ann se esvazia toda nela mesma e transborda nela mesma e transborda ainda mais e enche tanto de tanto esvaziar-se em si. Ela com ela mesma. Ann Nothing, classe média. Começa pelo meio sempre. O fim é o mesmo meio. E sempre seu fim é o começo.

O vazio de Ann Nothing

_o meio

domingo.
noite.
após o Domingo Maior.
vai deitar-se,
em sua tonelada solidão.
eu com eu mesma. goza.
existência arrastada
da última poesia: daydream
nas páginas marrons.

_o fim

acordou ontemamanhã.
a tv fora do ar.
Nothing of Nothing.
as horas?
pra quê tantas?
pra quê servem?
e o controle onde está?
a tv continua ligada. sofrendo.
_o início

pensar.
com o sol.
Ann levanta-se do sofá e senta-se. ombros.
piscam os olhos.
tremem as mãos.
angústia de Nothing.
correr.
quarto-sala.
cozinha americana.
sabe sua inexistência
com a décima poesia Corgan.
e desvela-se
em qualquer Chat.
dia após dia.
masturba e prosopopéia seu vazio na Internet.

****
Ann Nothing abre uma Fiat Lux

Abri a caixa de fósforos
só tinha palito queimado,
acendi o cigarro
com o meu fogo fátuo.

Abri a Genealogia da moral
não tinha nem bem nem mal,
matei o pai Karamazov
para me pôr como parricida.

Abri a porta do Quartzo
e lá fora só se ouvia Houston Person.
- Nada como uma depressão pós-20!
Corri do lado de Tom Cruise Vanilla Sky.

Abri os botões da minha camisa
vi nos meus seios as cinzas,
arrependi-me de acender aquele baseado,
sentei-me olhando para trás (através do meu peito furado).

Abri minha cabeça com Klee:
chicletes, pitucas, carvão, cebola e uma jarra meio-vazia meio-cheia.
- Nunca achei o que procurava.
Gritei para Munch enquanto ele me olhava.

Abri 7 Palmos no chão de mármore.
- Por que as pessoas morrem?
Lá embaixo Mefistófeles não soube explicar
mandou-me ligar para o SAC.

Abri meu telefone de bolso
um exemplar raro de Dante.
- Como se perde na poesia.
Ao menos ninguém atendia (eu escutando forçosamente My Romance).

Abri uma escavação no centro de São Paulo
ninguém apareceu para reclamar.
- De volta a uma cidade grande.
Tongue para as caretas dos edifícios sem mar.

Abri a porta da casa do Gourmet.
- Hoje ninguém veio comer, Ann.
Fiquei sabendo da noite de autógrafos do velho escritor.
- Platão? Não senhor, tem PF?

Abri a semana e já estava na mídia
perguntavam como eu pensava.
- Não que eu não saiba não...
Mas um homem gordo não deixou me concentrar.

Abricó - o fruto do abricoteiro;
Abricoteiro - árvore sapotácea;
Abrideira - aperitivo, em geral de aguardente;
Abridor - instrumento para abrir;
Abrigar - resguardar-se de intempérie;
Abrigo - lugar que abriga;
Abril - o quarto mês do ano;
Abrilhantar - tornar-se brilhante;
Abri meu mini Aurélio e não me encontrei lá.
- Não que eu não saiba não... (silêncio e indisposição)

Abri a porta da sala do meu analista, Sr. Ronald McDonald.
- Quantos Picasso! Quantos!?
Ele explicou-me que era necessidade e catexia.
- Que saudade dos Fevers (a gente era feliz e não sabia).
Abri o zíper da minha calça e mostrei a palma de minha mão esquerda a ele.
- Sua herege, saia daqui! Sua vadia!
Fui posta para fora sob olhares suspeitos de Sir Sherlock Holmes,
fui morar em Pasárgada (lá meu amigo é amigo do Rei).

Abri lá uma livraria de cigarros.
- Temos todos os tipos e tamanhos:
auto-ajuda, religiosos, baseados em fatos reais...
Porque tanta gente não entende.

Abri falência e fui ao Rei.
- Não! Não conheço seu amigo
e me explique seu peito furado,
documentos, por favor!

Abri a saída do Paraíso,
cá embaixo estou de novo
andam me confundindo com um ET
logo eu, filha de belos pais: Allan Delon, a Salomé de Rilke e Aristófanes.

Abri a porta do caminhão.
- Vou para onde você for.
- Estou indo para Brasília falar com o presidente para ajudar toda essa gente que só faz sofrer.
- Ué!?

Abri a porta do caminhão
não tinha nada de anormal
desci gritando pelos matemáticos
já estava perdida lost (nem sabia mais onde estava).

Abri os olhos, no colo d'O Homem dos meus sonhos.
- Onde estamos?
- Na Lagoa Azul.
- Mas eu não sei nadar.

Fechei a caixa de fósforos
e voltei ao ChatPaquera:
Ann Nothing, loira, alta, seios fartos, 17, procura.
Adoro ser fingida e me maquiar.

****

Cento e trinta e nove amigos virtuais puxam uma conversa casual com Ann pelo MSN. Ela se deixa cair da cadeira e olha além máquina. As mesmas perguntas. Sem respostas. Vejam o olhar de Nothing, sem respostas, sem perguntas. Além vida. Sua webcam ligada para os humanos comuns. Quanto tempo não ler. Livros de poeiras, se abrem e se vão. Ann hoje está muda. Billy se aproxima. Olhando. Experimentando. Minúscula. Reset.

O primeiro suicídio kiriloviano de Ann Nothing

Estava toda melada
em todo meu corpo
o gozo alheio de mim
e não sentia mais nada.

recalcada.

Aquela noite vitrolada
aqueles humanos comuns
i could be a friend to you
num canto minúsculo.

músculos.

Com uma pistola em mãos
desafiava com meus dedos meus deuses
Alieksei Niilitch Kirilov
sou toda tua toda desrazão.

imbecil.

Em 1872, atirei único prógetil
meu crânio em impulso reativo
tremeu no ritmo de sua epilepsia
estava iniciado meu estupro.

ânus.

Penetrou-me durante anos
as batidas Mellon Collie do som
o sobrevivente Billy Corgan se aproxima
ia de uma extremidade a outros.

buracos.

O gozo descia de meus poros
seguindo o percurso da bala em meu crânio
o sangue me vasava grosso
se misturava com a admiração.

escopofílicos.

Era 2005, quando os herdeiros de Kirilov - os rústicos,
na mínima contagem de tempo entre vida e morte
me concedem o título Suicida Extraordinária
a bala sai pelo outro lado.

do começo.

A noite se levanta
quando o som acaba eles saem do canto
não sentia mais nada
toda melada...

de quatro.

Os demônios no canto do canto
the future embrace stop
me lavei com sabão neutro e alcóol
o furo na cabeça não me constrangeu.

em nada.


Now and then i'm Ann Nothing
i could be a friend to you



Now and then i'm Ann Nothing
i could be a friend to you



Now and then i'm Ann Nothing
i could be a friend to you


vírus.


Ramon Alcântara

06/07/07

Rilke chega perto, entra e passa longe

Rilke chega perto, entra e passa longe
Eu fico bamba
na linha do horizonte.

Rilke escreve na linha e atrás

e diz nas páginas e entre elas
Eu viro bóia
nas águas dos ventos do folhear.

Rilke alcança
ou eu imagino?

Rilke alcança
e eu imagino.

Orfeu é Todo,
Tudo é Duíno.

Eu estou perdido
na quina da página,
mareado.

Rilke chega perto, entra e passa longe,
despaginado.


Ramon Alcântara